A China está mobilizando, a partir das diretrizes estratégicas do Partido Comunista da China (o PCCh) e do planejamento por meio dos Planos Quinquenais (PQs), todos os esforços possíveis para tornar-se um país cada vez mais sofisticado e intensivo em tecnologia.
Como exemplo, os gastos chineses em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) registraram, em 2025, a alta histórica de 2,68% em relação ao PIB, acima do patamar dos países de renda média. A China também ranqueou na quarta posição mundial em pedidos de patentes, em 2024, com um montante de cerca de 20.000 pedidos, quatro vezes mais do que o registrado apenas 10 anos antes, em 2014.
Segundo o Critical Technology Tracker (CTT) de 2025, a China atualmente lidera em 66 das 74 tecnologias críticas, com os EUA liderando nas 8 restantes. Em oito das dez tecnologias adicionadas no novo relatório do CTT, a China tem liderança ampla na parcela mundial de produção científica de alto impacto, além de deter alto grau de monopolização em quatro destas oito tecnologias: (1) computação em nuvem; (2) visão computacional; (3) Inteligência Artificial (IA); e (4) tecnologias de integração em rede.
Na 20a Sessão Coletiva de Estudos do Comitê Central do PCCh (2025), o Secretário-Geral, Xi Jinping, reafirmou que, frente ao progresso veloz das novas gerações de tecnologias de IA, a China deve: (1) aproveitar ao máximo as vantagens da estrutura de alavancagem das capacidades nacionais; (2) persistir na busca pela autossuficiência; e (3) impulsionar o desenvolvimento da IA de forma benéfica, segura e justa no país.
Na presente coluna, focaremos na centralidade das tecnologias relacionadas com a Inteligência Artificial (IA) para o Exército de Libertação Popular da China (ELP). Destacamos que, assim como está ocorrendo com as outras grandes potências, a China está desenvolvendo nexos Estado-Empresas-Burocracia para potencializar a incorporação do progresso técnico da 4a Revolução Industrial em seu setor militar.
Em primeiro lugar, a Fusão Civil-Militar (FCM) radicalizou o processo de integração entre as esferas civil e militar da economia chinesa na última década. A FCM foi inaugurada, enquanto caminho a ser trilhado pela China em anos posteriores, pelo então Presidente chinês, Hu Jintao, em 2007, durante o 17º Congresso Nacional do PCCh.
Xi Jinping ampliou o escopo e a escala da iniciativa, institucionalizando-a e a elevando à categoria de estratégia nacional em março de 2016, após aprovação do Politburo do PCCh. A FCM compreende uma estratégia nacional angariada por empresas (estatais e privadas), instituições burocráticas e o ELP, cujo objetivo declarado é o desenvolvimento e a modernização militar do país.
Em paralelo a FCM, no Defense White Paper de 2015 (documento central de diretrizes do ELP) anunciou-se uma nova fase da modernização militar do país: a chamada inteligentização. Esta nova rodada seria caracterizada por redes inteligentes, por sistemas autônomos e, em particular, pela exploração e pela incorporação da IA em novas tecnologias militares.
Em linha com as diretrizes de integração profunda, propostos pela FCM, a China vêm aprimorando seu desenvolvimento de projetos conjuntos (Estado e empresas) para o desenvolvimento de tecnologias de uso-dual civil-militar a partir da IA na última década. São exemplos destes projetos: (1) o Internet+ Action Plan (2015); (2) o Innovation-Driven Development Strategy (2016); e (3) o New Generation Artificial Intelligence Development Plan (2017).
A atual corrida tecnológica sino-estadunidense os aproxima em matéria de orçamento e direcionamento de financiamento militar. Segundo estimativas de gasto militar dos dois países, no ano de 2022, o Pentágono investiu US$118 bilhões em P&D, enquanto a China investiu apenas US$45,8 bilhões. Mas, as estimativas de gasto militar deles em tecnologias relacionadas à IA, por exemplo, são muito próximas, com a China investindo entre US$1,6 bilhões e US$2,7 bilhões e os EUA investindo entre US$2,5 bilhões e US$ 4,8 bilhões no ano de 2020.
Para se ter ideia do tamanho da iniciativa chinesa, cerca de 2% de todos os contratos fornecidos pelo ELP entre abril e novembro de 2020 foram relacionados à IA. A Tabela 1 nos permitirá visualizar a distribuição de contratos militares relacionados à IA no período por área de aplicação.
Tabela 1: Número de Contratos Militares relacionados à IA por Área de Aplicação
| Área de Aplicação | Número de Contratos |
| Veículos Inteligentes e Autônomos | 121 |
| Inteligência/Reconhecimento/Vigilância | 63 |
| Manutenção Preditiva e Logística | 38 |
| Informação e Guerra Eletrônica | 29 |
| Simulação e Treinamento | 22 |
| Comando e Controle | 15 |
| Reconhecimento Autônomo de Alvo | 14 |
| Outros | 41 |
O ELP está avançando em áreas de modernização militar consideradas críticas e previamente lideradas incontestes pelos EUA. Esta tendência, levada a cabo pela FCM chinesa, manteve-se nos últimos anos. Em evidência, apenas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, o Exército chinês forneceu 2.857 contratos militares de IA, estimados em US$535,5 milhões. A Tabela 2 apontará o agregado de contratos militares relacionados à IA pela categoria da entidade contratada, bem como a distribuição do número e do valor dos contratos por categoria.
Tabela 2: Contratos Militares relacionados à IA por categoria de entidade
| Categoria | Contratos Recebidos | Valor dos Contratos |
| Empresas Estatais | 414 | US$ 242.885.380 |
| Instituições de Pesquisa | 423 | US$ 43.426.801 |
| Empresas Privadas | 764 | US$ 100.838.755 |
Do nosso ponto de vista, portanto, podemos dizer que a China está incorporando os frutos do progresso técnico característicos da incipiente 4a Revolução Industrial em seu setor militar. A FCM e a inteligentização são peça-chave deste projeto, liderado pelo PCCh (e os PQs) e pelo ELP, cujas evidências nos dão dimensão da centralidade estratégica da IA na corrida tecnológica (e militar) sino-estadunidense.
