Presidente do Senado usa a postura acuada de Lula/PT e dos Bolsonaro para ter ganhos políticos com a interrupção das investigações
Como se consegue relevância em Brasília? Como conseguir o respeito da classe política?
Essas perguntas, tão velhas quanto o próprio “fazer política” no Brasil, mostraram-se novamente atuais nas desdobradas mais recentes do escândalo do Banco Master. Alcolumbre, possivelmente o homem mais poderoso da República hoje, obstrui o trâmite da CPMI do Banco Master por interesse pessoal, contrário à pressão popular e midiática. Nesse movimento, presume-se que o cálculo político é ganhar tempo e postergar eventuais represálias que o maior escândalo de corrupção da história do país possa trazer aos culpados. Mas, como funciona esse cálculo? E como as notícias mais recentes se encaixam nisso?
O caso Master: um resumo
O escândalo do Master, resumidamente, começa com o PT da Bahia e com um produto financeiro chamado Credcesta. Funcionários públicos que contratavam esse crédito consignado recebiam descontos irregulares, não previstos (portanto, fraudulentos, em suas contas levando a um lucro maior que o estipulado. Os rendimentos desse produto então, presumidamente, seriam usados para compra de influência política para colocar o Master em bons lençóis. As notícias que vimos recentemente acerca de Jaques Wagner se envolvendo no escândalo não destoa dessa dinâmica, uma vez que o PT da Bahia está aparentemente envolvido intrinsecamente na operação1.
Com o poder financeiro dessa fraude, Vorcaro conseguiu atrair para si vários vetores políticos. Sabemos de possíveis agendas extraoficiais do banqueiro com Lula, ligações íntimas com Ciro Nogueira, uma possível relação com o líder da PF, com os ministros da Suprema Corte e, como caso mais latente, o envolvimento com o filme Dark Horse dos Bolsonaro. A esse ponto, seria inútil listar as conexões que a PF e mídia vem descobrindo aos poucos, pois o esquema provou a falha estrutural da República em prevenir casos de corrupção. Absolutamente todos estão envolvidos, a venda da sobriedade e institucionalidade da Terceira República foi um ato conjunto.
Mas, como isso afeta o jogo político agora?
Alcolumbre na CPMI do Banco Master
Alcolumbre usa de sua posição nesse caos como forma de concentrar poder, como há de se esperar de qualquer ator político. Como presidente do Senado, cabe a ele decidir o procedimento do caso, e sua enorme influência nas alas do centrão também o dão alguma arbitragem sobre como votam os parlamentares. Vendo isso, sabiamente trabalha ativamente contra a CPMI do Master uma vez que, apesar do desgaste gigantesco que gera, ganha poder de barganha com ambos os lados já que essa investigação já afeta o seio de ambas as operações petistas e bolsonaristas. Quem dirá se sairiam vivos após um reforço político das mesmas.
Em paralelo, a CPMI do INSS já sofreu do mesmo tratamento político, apesar de menos prematura. Esquema irmão ao golpe do Credcesta, também é bastante transversal no rol dos envolvidos e perdura por mais de um governo, apesar de mais fortemente prejudicar alas ligadas ao Lula e ao PT. Também sofre a mesma tentativa de sufocamento e boicote, ora por um apoio parcimonioso e tático de alas ligadas ao partido para evitar o desgaste, ora pelo bruto “defender Bolsonaro & aliados a qualquer custo” de alas ligadas à direita.
Assim, se instala uma dinâmica similar ao imediato pré lava-jato: a pressão popular e midiática não parece surtir efeito institucional pelo custo de oportunidade de concentração de poder pelos agentes políticos. Igualmente, tendo em vista esse impasse, em ambos os casos vimos a PF vazar dados sigilosos da investigação para tentar alimentar a fúria popular e pressão sobre as instituições, tática antiga ao corpo investigativo quando se veem impossibilitados de trabalhar. A postura de Alcolumbre, por sua vez, o faz ganhar muito poder de barganha, além de poder ligado ao respeito, uma vez que os agentes políticos o veem sentando em cima de uma ação popular em troca de apoio político.
Nesse sentido, a situação das investigações encontra-se nesse impasse, onde a concentração de poder vale mais a pena que a devida responsabilização dos culpados. Somando isso à advocacia por causa própria que alas do STF tem demonstrado (inclusive tentando anular a operação contra Wagner), passamos a não ver horizonte de justiça claro sem uma ruptura institucional mais agressiva.
- É importante esclarecer que essa filial do Partido é especialmente ligada ao centrão, dissociando-a da pauta ideológica tradicional. Mais que em outros, o PT da Bahia possui alianças e uma sobreposição especialmente fortes com oligarquias políticas antigas e locais, como parece ser a regra no “fazer política” do Estado. ↩︎
