Lula impediu quadros novos em seu partido, e seu eleitor envelheceu. Como ficam seus votos?
Não é novidade que Lula concentra uma quantidade de poder e legitimidade nunca antes vista na nova república, quiçá em nenhuma outra. A imagem de um operário sindicalista subindo à rampa e fazendo um governo de centro-esquerda, sofisticado, importando-se com os mais carentes é muito viva no imaginário da esquerda brasileira e do mundo até 2023. A eleição de Lula em 2002 foi uma espécie de marco da esquerda brasileira, e aos poucos aparenta estar perdendo tração. A inabilidade do governo de Lula em lidar com um congresso hostil, somada a um cenário internacional muito menos propício ao seu jogo multipolar, gera um desgaste lento e perceptível em seu governo. Mas, como isso se reflete nas eleições de outubro?
O surgimento do PT: poder real
De maneira mais branda, o PT de Lula é o partido político mais bem-sucedido da história brasileira e é exemplo organizacional e administrativo internacionalmente. Fundado ao final da ditadura militar, originou na soma entre células sindicais-operárias, de estudantes universitários, católicos e radicais egressos do PCB. O partido fez como nenhum outro o jogo de base: ganhou apoio orgânico e apostou nele e na formação de quadros, aos poucos se infiltrando no Estado e outorgando sua legitimidade no debate público. Surfando na onda da redemocratização, ganhou apoio de muitos artistas e forçou sua larga vitória em 2002, para não sair mais do debate público.
O partido é a antítese do que já foi desenvolvido pela Acrópole acerca do bolsonarismo. Ele tem fundamentação institucional, conquistada pelo trabalho de fervura lenta ao longo do tempo. Juízes tomam decisões baseadas em suas teses, promotores usam autores ligados ao partido em seu trabalho, políticos pautam suas teses e funcionários públicos a usam de inspiração para fazerem políticas públicas. Isso é verdadeiro, e é diferente da onda carismática (e carismática apenas) do fenômeno Bolsonaro.
O desgaste do PT: criação de Lula e problema geracional?
No entanto, vivemos o suficiente para ver a “onda rosa” petista se esgotando. Primeiramente, cabe analisar a concentração de poder e legitimidade por parte de Lula: historicamente, ele trabalhou internamente ao PT para sufocar qualquer possibilidade de alternativa à sua figura como liderança principal no partido. Somado à luta pela hegemonia na esquerda, característica ao seu partido, o sindicalista garantiu hegemonia total de metade do campo político-ideológico brasileiro. Com o avanço da idade, Lula e o PT não se renovam. A estrutura inabalável e altamente efetiva de poder começam a falhar em perceber as pautas populares e se apegam a um modus operandi político antigo de assistencialismo social, presidencialismo de coalizão e multipolaridade. Lula usou todas as armas que fizeram seus primeiros governos serem um sucesso, mas viu que o mundo e a política estavam diferentes.
Prova disso, para além da má relação que o governo de Lula têm com os EUA, é a pesquisa mais recente Quaest. Apesar de não ser plenamente confiável, tendo em vista seu método suscetível à manipulação e o sobrepeso do instituto na parcela mais idosa e rica da demografia brasileira, Lula demonstra desgaste nítido. Outros institutos, por sua vez, relataram o mesmo: seu eleitor médio tem mais idade, é mais feminino e se concentra mais nas cidades pequenas do Norte-Nordeste. A interpretação mais interessante a esses dados é que seu eleitor permaneceu leal enquanto falhou em dialogar com parcelas mais jovens (tal como seu partido, que não possui quadros relevantes nas gerações Millenial e Z).
Essa parcela é saudosa da sua política de auxílios, que aumentou o consumo geral (tanto com produtos com serviços, como educação) e gerou maior bem-estar relativo na população mas não conseguiu se fazer tão presente em um terceiro mandato, onde um orçamento discricionário mais apertado o força a elevar os gastos, mantendo os juros altos, agradando os aliados de outrora e cerceando a conversa com o eleitorado mais jovem, que pena para ter maiores salários e sustentar seu consumo.
Para onde vai esse eleitor?
Diferentemente do que popularmente pode se pensar, o eleitorado mais jovem não transicionará automaticamente a Flávio Bolsonaro, que também dialoga com uma parcela com mais idade. Por sua vez, as mesmas pesquisas mostram que essa parcela é especialmente desengajada: além de uma alta concentração de votos inválidos nas pesquisas, as principais pautas requeridas por essa parcela (aumento do poder de compra e segurança pública) mostram como veem o tecido social brasileiro desgastado. Por isso, algumas discussões internas pensam em uma substituição por Camilo Santana (preferido por Lula) ou Fernando Haddad para solucionar essa problemática, mas não existe posicionamento firme.
Dessa maneira, algo inédito desde 2002 surge: um espaço possível (mas também questionável) para uma terceira via. É cedo para falar se algum presidenciável vai assumir tal parcela, se ela vai se converter ou realizar um voto pragmático. No entanto, a tendência permanece. Assim, se desenvolve uma grande problemática do PT para o próximo pleito. Em conjunto com a sua base eleitoral consolidada, pontuando ao menos 40% em qualquer cenário, Lula pena em conseguir os 3 ou 4% que precisa para levar o pleito.
