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O Complexo Militar-Industrial-Acadêmico e as Big Techs: uma história mal contada

Na coluna da última semana (19/06), apresentamos a incorporação do progresso técnico da 4a Revolução Industrial na China. Agora, voltaremos nossa atenção ao caso estadunidense, desvendando a relação histórica e inseparável das Big Techs com o Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA.

Foto ilustrativa · Acrópole

Existe muita confusão em torno da relaçaõ entre as Big Techs e o Estado norte-americano, particularmente no que diz respeito ao papel do Estado para o próprio nascimento do setor e suas firmas. O mito das “startups de garagem” ou dos “empresários geniais” não tem nenhuma validade histórica ou conceitual. Argumentaremos, daqui em diante, que as Big Techs nunca estiveram separadas do setor militar norte-americano e, pelo contrário, seu sucesso deve-se às diretrizes estratégicas do Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA.

Do nosso ponto de vista, a relação destas empresas com seu Estado nacional são mais antigas do que em geral se supõe, remontando ao desenvolvimento tecnológico-militar capitaneado pelo Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA ao longo da Guerra Fria (1947-1991), e, além disso, são ativos estratégicos dos EUA desde seu nascimento.

Portanto, partimos da noção de que, neste quartel do século XXI, as Big Techs emergiram como ativos estratégicos de seus Estados-Nacionais não apenas para as disputas pela riqueza, como também pelo poder no Sistema Internacional.

Do lado da riqueza, seja a produção de hardwares, como circuitos integrados, semicondutores ou chips de alta-performance, seja a venda ou a oferta de serviços de software,como mineração e análise sistemática de dados, infraestruturas digitais, algoritmos, modelos de inteligência artificial, data centers ou nuvens privadas, a trajetória recente do setor nos permite afirmá-lo como atividade central da acumulação acelerada de capital da contemporaneidade.

Do lado do poder, seja pelos serviços oferecidos na extração, na mineração ou na análise sistemática de dados, seja o desenvolvimento de grandes modelos de linguagem para inteligência artificial, seja pelo auxílio logístico às operações de combate físicas ou cibernéticas, seja pelo seu potencial uso em táticas de psy-op (Operações Psicológicas) ou de táticas de guerra não-convencional de 5ª ou de 6ª geração, a crescente interligação entre o potencial civil e militar do setor nos permite afirmar sua importância estratégica nas atividades da guerra.

Realizada a contextualização do papel das Big Techs hoje, temos de remontar ao tempo histórico para entender porque estas empresas nunca estiveram separadas do setor militar norte-americano. Ao longo da Guerra Fria (1947-1991), observamos um salto na capacidade de articulação interna dos grandes projetos de inovação tecnológica capitaneados pelo Departamento de Defesa (DoD) dos EUA e suas agências (CIA; NSA; DARPA; NASA).

O Complexo Militar-Industrial-Acadêmico gerou, em diferentes momentos, um estímulo tanto de demanda quanto de oferta ao processo de inovações e criou uma rede descentralizada e coordenada de instituições e comunidades tecnológicas sem rival no mundo contemporâneo. Dada esta característica específica, a influência dos militares na tecnologia não foi circunscrita à provisão de recursos ao processo de P&D e às compras de governo aos fabricantes de armas, mas incluiu a montagem de instituições voltadas ao deslocamento da fronteira científica e à aceleração do progresso tecnológico.

A diretriz estratégica das disputas pelo poder e pela riqueza ao longo da Guerra Fria (1947-1991), em particular dinamizada pelos avanços da URSS na Corrida Espacial, traduziu-se, nos EUA, a partir da centralidade do desenvolvimento de tecnologias de uso-dual civil-militar sob comando do Complexo Militar-Industrial-Acadêmico.

Nesta linha, enfatizamos que: (1) em primeiro lugar, a preocupação constante do setor militar em construir tecnologias de ponta, com vistas a não encontrar-se em defasagem frente à potência rival (neste caso, a URSS), estimulou um compromisso em manter uma taxa acelerada de inovações tecnológicas, visando-se a garantia de sua superioridade sobre seu concorrente; e (2) em segundo lugar, o encurtamento das distintas fases do processo inovativo, devido à preocupação estratégica de desenvolver, independente dos custos ou dos riscos, novas tecnologias disruptivas, favoreceu o processo de difusão tecnológica na economia em geral.

Foi, portanto, a colaboração entre as agências ligadas ao setor militar que impulsionou a geração de novas tecnologias disruptivas, gestadas no Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA e, posteriormente, difundindo-as no setor civil, como os computadores, os jatos, a energia nuclear civil, os lasers, a biotecnologia, a internet e os semicondutores, por exemplo.

No caso dos semicondutores, as inovações básicas do setor, como o transistor e os circuitos integrados, emergiram das dinâmicas encetadas pelo Complexo Industrial-Militar-Acadêmico dos EUA. Os programas militares impulsionaram a indústria de semicondutores tanto pelo lado da oferta, quanto pelo lado da demanda.

Pelo lado da oferta, proporcionaram: (1) o impulso rumo a direções tecnológicas precisas para P&D; (2) o incentivo para o apoio financeiro direto à exploração de múltiplas trajetórias nas fases iniciais do setor; (3) a aceleração do progresso técnico; (4) o subsídio para expansão da capacidade produtiva a certos níveis-alvo estabelecidos pelos projetos militares; (5) o impulso à padronização da produção; e (6) a redução das barreiras à entrada do setor.

Pelo lado da demanda, proporcionaram: (1) a garantia de um futuro mercado para qualquer inovação correspondente às características tecnológicas requeridas; (2) a expansão da demanda, com poderosos efeitos de aprendizado associados à produtividade e aos custos unitários; e (3) o subsídio dos contratos governamentais para os custos fixos (como os de P&D).

A articulação entre o DoD, suas agências e burocracias, as empresas (do setor militar e do setor civil) e as universidades estadunidenses está intimamente ligada à emergência do Vale do Silício, enquanto polo tecnológico. O Vale do Silício emerge da DARPA, a qual financiou os primeiros protótipos de chips de computadores em laboratórios ligados à Universidade do Sul da Califórnia, no Vale do Silício, por exemplo.

Todas as tecnologias essenciais dos principais produtos e serviços ofertados pelas Big Techs (hoje) foram (antes) desenvolvidas pelo Complexo Militar-Industrial-Acadêmico, como: (1) os microprocessadores e unidades de processamento centrais (CPUs); (2) as memórias de acesso aleatório dinâmico (RAM); (3) os armazenamentos do disco rígido (HDs); (4) as telas de cristal líquido (LCDSs); (5) as baterias de lítio; (6) o processamento digital de sinais (PDS); (7) a Internet; (8) o Procolo de Transferência de Hipertexto (HTTP) e a Linguagem de Marcação de Hipertexto (HTML); (9) as tecnologias de celular e redes; (10) o Sistema de Posicionamento Global (em inglês, GPS); (11) a navegação click wheel; e (12) a Inteligência Artificial (IA), por exemplo.

As Big Techs, portanto, jamais estiveram separadas do Complexo Militar-Industrial-Acadêmico estadunidense. Pelo contrário, o seu sucesso deve-se, em grande parte, aos esforços empreendidos pelos EUA para manterem-se na dianteira tecnológica frente aos seus parceiros e seus rivais.

Assim, buscamos jogar luz sobre as dinâmicas profundas do cálculo estratégico das grandes potências que dinamizam e investem pesadamente nos setores da economia considerados estratégicos. As diferenças, portanto, entre a Fusão Civil-Militar chinesa (ver O ELP e a IA: a Nova Rodada de Modernização Militar Chinesa, 19/06) e o Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA são muito mais específicas e precisas do que em geral se supõe.

Os mitos das “startups de garagem” e dos “empresários geniais”, portanto, não tem qualquer respaldo histórico significativo, ficando restritas a um mundo fantástico criado para sustentar uma imagem ideológica do capitalismo norte-americano. As Big Techs são (desde seu nascimento) partes constitutivas das disputas internacionais pelo poder e pela riqueza, capitaneadas pelas grandes potências e suas capacidades de estabelecer nexos Estado-empresas-burocracia-universidades voltados ao cálculo estratégico/competitivo da arena internacional.

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