Ambos os presidenciáveis tiveram respostas diferentes ao novo tarifaço, mas como isso impacta o pleito de outubro?
Na semana passada, Brasília parece ter focado sua atenção no novo tarifaço de Trump. As medidas propostas afetam muito seriamente setores da indústria brasileira e, como é de se imaginar, vêm em um momento onde os EUA buscam reafirmar sua soberania e força no mundo de uma maneira bastante agressiva. Essas taxas reverberaram no Brasil não tanto por causa de seu efeito prático, mas pelo boost temporário que ofereceram à campanha de Flávio Bolsonaro. Mas, afinal, foi ele quem convenceu Trump a aplicá-las? E elas se sustentam?
Marco Rubio: pessoa certa, no momento certo
O ponto central a ser analisado é Marco Rubio, secretário de Estado do governo de Trump. Sua figura é constantemente tratada com vaias e deboche, especialmente depois de Lula o ter chamado de “latino americano frustrado” por sua postura agressiva quanto a governos latinos não aliados. Vale aqui a revisão: Rubio foi escolhido ao cargo justamente por sua postura para com os governos do continente e é peça-chave do regime atual.
Filho de cubanos perseguidos pelo governo de Castro, o secretário nutre uma ideologia antagonista às políticas que, supostamente, aproxima a sociedade do socialismo. Assim, medidas típicas nesta sessão do sul global (como uma ênfase em assistência social, empoderamento do executivo e judiciário frente o combate à pobreza, entre outras) são vistas com profundo ceticismo por seções influenciadas por ele no partido. Essa visão lhe garantiu crescente legitimidade dentro do Partido Republicano, culminando em sua nomeação para o cargo. Nesse sentido, suas convicções pessoais parecem se alinhar ao espírito do tempo da política externa americana. Mas, então, como isso se cruza com a política nacional?
A visita de Flávio e seu boost eleitoral
Sabe-se que Flávio tem uma campanha, no mínimo, perdida. Seu envolvimento com as polêmicas do filme Dark Horse, suposto meio por onde a superfaturação permitiu a compra de apoio político de seu clã pelo dono do banco Master, desidrata sua força competitiva mesmo com um eleitorado fiel. O episódio faz pairar sobre a esfera bolsonarista incertezas, e faz seus seguidores pensarem duas vezes antes de votar em um suposto ladrão. Essa posição é especialmente desconfortável a ele, que apenas possui o carisma político do pai como capital político e depende de estrutura de poder formais alheias para viabilizar sua campanha.
Eis, então, a viagem inesperada aos EUA. Muito provavelmente por informações privilegiadas de suas conexões com membros do governo Trump, Flávio inesperadamente vai à Casa Branca e se encontra com o presidente para bater uma foto. Pelo que sabemos de seu horário de entrada e os protocolos de visitação do local, é muito pouco provável que o presidenciável tenha ficado mais de dez minutos com o presidente dos EUA. Sequer foi tempo o suficiente para tirarem uma foto apertando as mãos, assumindo que ambos queriam isso. Pelo contrário: embaixadas dos EUA se apressaram em dizer que a visita não é apoio eleitoral, temendo alguma represália diplomática.
Tal como seu pai, Flávio usa os dispositivos internacionais e suas parcerias para ganhar capital político para dentro do país, não para projetar o nacional para além de nossas fronteiras. A foto ressoou como fogos de artifício na esfera bolsonarista, dando uma imagem de um executor capaz na articulação, coisa que os tensionamentos entre Lula e Rubio retiraram da imagem do governo.
Mas, isso foi efêmero. E o desgaste veio logo em seguida.
A resposta de Lula e a pauta “nacionalista”
Lula parte para o pleito de outubro em uma posição muito mais confortável. Apesar de fortemente reprovado por todo o país, ainda possui um partido e estruturas de poder alheias ao legislativo que lhe dão legitimidade e governança. Ainda mais relevante foi seu trabalho histórico (e do PT como um todo) em sufocar qualquer outra liderança na esquerda, mesmo dentro de seu partido. Apesar da iminente crise sucessória que sua idade trama, é inegável a concentração de poder pelo mesmo.
Igualmente, a pauta “nacionalista” têm surgido como resposta à postura agressiva de Rubio (e dos EUA como um todo) a um Brasil mais alinhado China. Não é por dúvida: as ações do tarifaço impactam todo o tecido produtivo brasileiro, independentemente do setor. A resposta que ambos os presidenciáveis dão à situação como um todo mostra uma tendência de vitória de Lula, que tensiona com Rubio e alega defender os interesses nacionais ao invés de se alinhar com Trump. É nesse movimento que, mesmo com um governo muito desgastado e altamente envolvido em esquemas de corrupção que Lula busca ganhar os 3 ou 4% que lhe faltam.
Assim, as diferentes respostas à movimentação deixam evidente uma tendência: enquanto Lula trabalha muito para ganhar uma parcela pequena de indecisos, Flávio cada vez mais abre margem para Lula e para outras candidaturas de direita. A falta de capital político próprio e a dependência do carisma familiar no fenômeno bolsonarista parece não se adequar à natureza da disputa desse pleito.
