Os Estados Unidos, serão um dos anfitriões do maior evento esportivo do ano e, ao mesmo tempo, seguem como o país que mais usa sanções como instrumento de política externa. A Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026 é apresentada pelos países-sede (EUA, México e Canadá), pela FIFA e pela mídia como um momento de celebração universal e um encontro entre povos em torno do esporte mais popular do mundo, mas parte decisiva do torneio acontecerá no território de um Estado que mantém uma ampla rede de restrições econômicas, financeiras e diplomáticas contra governos, empresas, bancos, autoridades e indivíduos ao redor do mundo – afetando também países que disputarão o torneio.
O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), subordinado ao Departamento do Tesouro dos EUA, descreve seus programas como abrangentes ou seletivos, usando bloqueio de ativos e restrições comerciais para cumprir objetivos da política externa da “segurança nacional” dos Estados Unidos. Visto que o dólar desempenha o papel de principal moeda de unidade de referência nas transações financeiras globais – predominando no comércio, nos fluxos de capitais e na política monetária mundial – uma sanção pode bloquear ativos, dificultar pagamentos, afastar bancos, encarecer importações, restringir exportações e criar risco para empresas ou instituições que negociem com alvos sancionados. Na prática, isso também atinge populações: ao dificultar a entrada de crédito, tecnologias, combustíveis, alimentos, medicamentos ou peças de reposição, regimes de sanção podem agravar cenários de escassez e deteriorar condições de vida, mesmo quando formalmente dizem mirar governos ou setores específicos.
Antecedentes
Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, em meio à Guerra Fria e como resposta ao boicote liderado pelos Estados Unidos em Moscou 1980, a União Soviética e parte de seus aliados – como Coreia do Norte e Vietnã – ficaram de fora da competição. Irã e Líbia também não participaram, em meio ao agravamento de suas tensões com Washington. Entre esses casos, alguns já estavam diretamente submetidos a restrições norte-americanas: Cuba vivia sob embargo desde os anos 1960; o Irã tinha ativos bloqueados desde 1979; a Líbia era alvo de sanções setoriais desde o início dos anos 1980; e o Vietnã ainda estava sujeito ao embargo comercial estadunidense desde a Guerra entre ambos os países (1955-1975).
Uma década depois, a Copa do Mundo de 1994, já após o fim da Guerra Fria e a primeira realizada nos EUA, ocorreu em um cenário igualmente marcado por sanções e exclusões: a Líbia foi impedida de disputar as eliminatórias, e Cuba abandonou o processo classificatório. Em Atlanta 1996 competiram normalmente, apesar de serem alvos de sanções ou hostilidade política dos EUA, países como Irã, Iraque, Líbia, Coreia do Norte e Cuba. O caso cubano foi particularmente simbólico, pois a participação ocorreu no mesmo ano da aprovação da Lei Helms-Burton, que endureceu o embargo à ilha (que ocorre desde 1962) ao ameaçar empresas de outros países que lucrassem com propriedades nacionalizadas após a Revolução Cubana (01/01/1959).
2026: a Copa do Mundo de Donald Trump
O Irã (Grupo G) é o caso mais evidente, pois chega à Copa entre sanções, uma guerra contra um país-sede e restrições à circulação de seus cidadãos em solo estadunidense. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o país é alvo de um dos regimes sancionatórios mais pesados dos Estados Unidos, com restrições sobre petróleo, bancos, ativos, transportes, aviação e redes acusadas de evasão. Em 2026, esse quadro se agravou quando a pressão diplomática em torno do programa nuclear iraniano passou para uma escalada militar aberta: a ofensiva iniciada por EUA e Israel, sob a justificativa de conter o avanço do enriquecimento de urânio no país persa, expressou uma diplomacia coercitiva levada ao limite, na qual o poderio militar se somou à estratégia econômica conduzida pelo Tesouro estadunidense. O próprio secretário do Tesouro, Scott Bessent, apresentou a campanha de “pressão máxima” como uma tentativa de colapsar a economia iraniana, cortar exportações de petróleo, negar divisas ao país e aprofundar a escassez de dólares – movimento que ajuda a explicar a desvalorização do rial, a inflação elevada, a crise de importações e a queda do poder de compra.
Para dentro, esse cerco aprofunda uma economia já marcada pelo isolamento financeiro e pela deterioração do bem-estar; com a guerra, para além das vidas em jogo, somam-se danos a estruturas civis e industriais, interrupções em cadeias de suprimento e o risco de eliminação de milhões de postos de trabalho. Para fora, Teerã responde ao bloquear o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula parte relevante do petróleo mundial, tensionando os preços globais, as rotas marítimas, seguradoras, refinarias e as empresas de energia globais. Nesse contexto, o Irã aparece como o principal adversário político-militar de Israel no Oriente Médio, não apenas pelo programa nuclear, mas também por sua posição contrária à Jerusalém no conflito israelo-palestino e pelas disputas regionais envolvendo aliados de Teerã.
A seleção iraniana disputará o torneio com uma logística marcada pelas tensões políticas: diante das restrições de acesso e circulação nos Estados Unidos, mudou sua base do Arizona para Tijuana, no México – já que os vistos da delegação impõem que eles deverão entrar e sair dos Estados Unidos no mesmo dia das partidas – enquanto Washington indicou atenção especial a supostos vínculos de integrantes da delegação com a Guarda Revolucionária.
Já o Iraque (Grupo I) não vive hoje um embargo amplo como o iraniano, mas carrega uma trajetória marcada por guerras, sanções e práticas de tutela externa há mais de três décadas. Depois da invasão do Kuwait por Saddam Hussein, em 1990, o país foi submetido a um duro regime de sanções internacionais, que atravessou os anos 1990 e agravou sua desorganização econômica e social. Mais tarde, a invasão estadunidense de 2003 e a queda do regime deslocaram o foco dessas restrições: de um bloqueio amplo sobre o Estado iraquiano para medidas mais seletivas, voltadas a ativos, autoridades, redes econômicas e grupos armados. Em 2026, mesmo classificada para a Copa, a seleção iraquiana também teria sentido esse peso já na chegada aos Estados Unidos: segundo a agência iraquiana Shafaq News – em informação também reportada pela Reuters com base em um oficial esportivo iraquiano – o centroavante Aymen Hussein foi retido e interrogado por quase sete horas no aeroporto O’Hare, em Chicago, antes de ser liberado; seu celular também teria sido inspecionado. O fotógrafo da seleção, Talal Salah, por sua vez, teria passado por procedimento semelhante e, após mais de dez horas de questionamento, acabou impedido de entrar no país.
Hoje, o programa “Iraq-Related Sanctions” convive com novas medidas voltadas a milícias que os EUA acusam de serem alinhadas ao Irã: em abril de 2026, os EUA sancionaram sete comandantes ligados a grupos como Kataib Hezbollah, Harakat al-Nujaba, Kata’ib Sayyid al-Shuhada e Asaib Ahl Al-Haq; em maio, atingiram também o vice-ministro do Petróleo, Ali Maarij Al-Bahadly, acusado de facilitar desvios de petróleo em benefício do Irã e de milícias associadas – acusação negada pelo governo iraquiano, que teme sanções mais duras e amplas, uma vez que possui nas redes econômicas petrolíferas sua principal via para exportações. Assim, a volta do Iraque à Copa ocorre atravessada por uma arquitetura sancionatória que mudou de forma, mas nunca desapareceu completamente.
Bósnia e Herzegovina (Grupo B) e República Democrática do Congo (Grupo K), por sua vez, no plano recente, vinham vivenciando sanções direcionadas a atores internos acusados de ameaçar a estabilidade política, a ordem institucional ou processos de paz, na perspectiva estadunidense. No caso bósnio, as medidas dos EUA se concentraram ao longo da gestão Joe Biden especialmente em redes ligadas ao ultranacionalista Milorad Dodik, outrora acusado por Washington de corroer os Acordos de Dayton – que puseram fim à Guerra da Bósnia ao estabelecer a Bósnia e Herzegovina como um Estado soberano dividido em duas entidades autônomas: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Sérvia (a qual Dodik lidera) -, estimular movimentos separatistas e sustentar esquemas de corrupção; no final de 2025, porém, os EUA retiraram sanções contra o sérvio-bósnio – agora interlocutor relevante de Trump nos bálcãs -, familiares, aliados e empresas próximas a ele.
No Congo-Kinshasa, as sanções não visam atingir o país como um todo, mas indivíduos e redes ligadas ao conflito no leste do país, sobretudo ao grupo rebelde M23, acusado de receber apoio de Ruanda. A ofensiva deles sobre áreas estratégicas e populações de Kivu do Norte e do Sul – ricas em minerais como coltan, ouro, estanho e tântalo, vitais para a indústria tecnológica global – levou Washington a mirar comandantes, autoridades e intermediários que lucram com essa instabilidade. Ainda assim, permanece uma dura realidade: enquanto são punidos atores da guerra, as grandes empresas e a economia mundial continuam dependentes de recursos extraídos em meio a uma crise humanitária.
Há ainda uma camada sancionatória mais difusa, ligada à acusações de criminalidade transnacional, narcotráfico, lavagem de dinheiro e à classificação de facções, cartéis e gangues como organizações terroristas por parte dos EUA. Nessa chave aparecem Brasil (Grupo C), Haiti (Grupo C), México (Grupo A e uma das sedes) e Colômbia (Grupo K). No caso brasileiro, o alvo são o PCC e o Comando Vermelho, tratados por Washington como organizações terroristas com capacidade transnacional; a reação do Itamaraty, porém, é a de reconhecer a gravidade das facções sem aceitar que uma decisão unilateral dos EUA produza efeitos sobre pessoas, bancos, transportadoras, empresas ou setores inteiros acusados de apoio material, financeiro ou logístico sem comprovação formal prévia.
No Haiti, o alvo são gangues como Viv Ansanm e Gran Grif, associadas por Washington ao colapso da segurança – envolvendo sequestros, extorsões e controle territorial -; ao passo que a pressão externa se sobrepõe a uma crise institucional profunda, em que as sanções podem afetar também fluxos humanitários, negociações políticas e a já frágil capacidade do Estado haitiano.
No México, os alvos alegados são cartéis ligados ao tráfico de drogas – em especial os envolvidos com o fentanil – e lavagem de dinheiro, como Sinaloa e Jalisco Nueva Generación; a resposta mexicana costumava envolver a busca por cooperação, mas atualmente a gestão da presidenta Claudia Sheinbaum rejeita qualquer enquadramento que abra margem para ingerência direta dos EUA em seu território. Já na Colômbia, os alvos apontado por Washington são redes ligadas ao narcotráfico, a grupos armados e a economias ilegais, como o Clan del Golfo e circuitos associados ao garimpo ilegal de ouro; já o governo Gustavo Petro acusa Washington de nem sempre sancionar os compradores, intermediários e mercados do próprio centro econômico que se beneficiam dessas cadeias.
No fim, a FIFA seguirá vendendo a Copa do Mundo de 2026 como uma confraternização global, enquanto parte dos países e povos em campo chega atravessada por sanções, bloqueios, tarifas, restrições de circulação e pressões financeiras por parte dos Estados Unidos. A entidade acomoda essa arquitetura sem constrangimentos: na verdade, toma um lado ao, por exemplo, a partir de seu presidente Gianni Infantino, premiar Donald Trump com o Prêmio da Paz da federação – um mês antes de o exército dos Estados Unidos adentrar o território venezuelano e capturar seu presidente -; ao passo que a Rússia está há quatro anos banida do futebol internacional após a invasão do país à Ucrânia. Desse modo, o torneio promete unir o mundo através dos gols, mas será também uma vitrine de uma ordem internacional que, embora questionada, ainda possui um polo bem claro.
