A seleção haitiana voltou ao Mundial depois de 52 anos, sem ter mandado jogos das últimas Eliminatórias em casa, sendo comandada pelo francês Sébastien Migné, que assumiu o cargo há dois anos sem jamais ter conseguido pisar no país por razões de segurança. Assim, Brasil e Haiti se reencontram na Copa de 2026 em uma mistura de sentimentos no plano esportivo: por um lado, a seleção brasileira tem tido problemas táticos em seu 4-2-4 e não convenceu no empate por 1 a 1 contra Marrocos; por outro, o Haiti vem de uma derrota concedida a duras penas por 1 a 0 para a Escócia – dos craques Scott McTominay (Napoli-ITA) e Andrew Robertson (Liverpool-ING) – após gol do meia John McGinn, capitão do Aston Villa (ING), em um bate-rebate. Agora, pela segunda rodada, as seleções brasileiras e haitianas se enfrentam em uma partida que rememora fortes laços políticos e futebolísticos entre ambas as nações.
No dia 18 de agosto de 2004, a Seleção Brasileira desembarcou em Porto Príncipe para disputar o chamado “Jogo da Paz”, em um arranjo entre o Planalto e a Confederação Brasileira de Futebol. A imagem parecia perfeita no plano da diplomacia cultural: contando com Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, o estádio Sylvio Cator cheio, o povo em festa e a ideia de que o futebol brasileiro poderia funcionar como linguagem de aproximação com o povo haitiano. Com a cena, vinha sua contradição: o 6 a 0 composto pelos dois gols do meia Roger Flores, os três de Ronaldinho Gaúcho e o gol do atacante Nilmar coexistiram com as imagens do desfile dos então campeões do mundo – que em meio a uma multidão, mas montados em blindados, sintetizavam um claro recado: o afeto se apresentava sob a sombra da tutela.
Desde sua revolução, o Haiti ocupa um lugar incômodo na imaginação das potências globais. Nascido da mais radical experiência anticolonial das Américas, o país que derrotou a escravidão e proclamou sua independência em 1804 passou a ser visto como ameaça à ordem colonial, racial e econômica do Atlântico. O processo ocorreu em meio àquilo que Eric Hobsbawm chamou de Era das Revoluções, mas não há contradição nisso: aquele ciclo histórico, àquele momento, abriu caminho para novas linguagens de liberdade, cidadania e soberania para sociedades europeias e dos EUA, ao mesmo tempo em que preservou limites coloniais, raciais e proprietários: para França, Estados Unidos e outras potências – como o próprio Império Colonial Português, que o Brasil fazia parte -, o Haiti independente carregava um perigo simbólico: era a exemplificação de que uma população negra escravizada poderia derrubar o sistema que a explorava – e que muito impulsionava as economias das metrópoles – e fundar um Estado próprio.
A desconfiança internacional, que acompanha o país desde sua origem, já em um primeiro momento foi duríssima: a França só reconheceu a independência haitiana em 17 de abril de 1825 mediante a imposição de uma pesada indenização de 150 milhões de francos, que drenou por décadas a economia do país. Os Estados Unidos, por sua vez, ocuparam militarmente o Haiti entre 1915 e 1934 e continuaram a exercer influência decisiva sobre sua vida política. Ao longo do século XX, ditaduras, golpes, crises econômicas e intervenções externas ajudaram a consolidar uma imagem recorrente: a de um Haiti permanentemente “incapaz” de governar a si mesmo e, por isso, sempre disponível à tutela estrangeira.
Em 2004, depois da saída de Jean-Bertrand Aristide e do agravamento da crise política e armada, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma força multinacional interina, com participação de Estados Unidos, França, Canadá e Chile. Poucos meses depois, essa presença foi substituída pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, agora com comando militar brasileiro. A passagem da força interina para a MINUSTAH não eliminou a lógica central e histórica: o Haiti voltava a ser tratado como um “problema internacional” a ser “estabilizado” por atores externos.
Para o Brasil, que estava no início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, liderar a MINUSTAH tinha um significado adicional: o país, cuja chancelaria era ocupada pelo embaixador Celso Amorim, buscava afirmar uma política externa mais ativa, projetar sua liderança no Sul Global e demonstrar capacidade de comando em operações multilaterais, em um momento em que a sua ambição por uma reforma e por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ganhava força. O Haiti, assim, tornava-se também vitrine da diplomacia brasileira: Brasília apresentava sua atuação como forma de solidariedade, responsabilidade humanitária e cooperação entre países do Sul, mas também calculava os ganhos simbólicos de comandar a maior missão militar de sua política externa recente.
O Brasil assumiu a vertente militar da MINUSTAH e enviou cerca de 1.200 soldados ao Haiti no início da missão, tornando-se responsável por uma parte central da presença internacional no terreno. Ao todo, ao longo dos 13 anos da operação, mais de 37 mil militares brasileiros passaram pelo país, em uma experiência cuja função era propor o patrulhamento, o apoio à Polícia Nacional Haitiana, a segurança para processos eleitorais, operações em áreas urbanas e a participação em ações humanitárias.
Em termos de resultados, a MINUSTAH produziu alguma estabilização de curto prazo, ajudando a organizar eleições, dando suporte à reorganização da Polícia Nacional Haitiana, atuando em operações de segurança em Porto Príncipe e se tornou uma das bases da resposta internacional após o terremoto de 2010. Para o Brasil, o saldo institucional foi real – e problemático. Em primeiro plano, embora o presidente Lula, naquele momento, tenha projetado o país – e também se projetado – internacionalmente como interlocutor relevante, os grandes objetivos de reforma do Conselho de Segurança da ONU não foram alcançados, mesmo com a articulação do G4, formado por Brasil, Índia, Alemanha e Japão. Além disso, as Forças Armadas ganharam experiência em comando multinacional, na coordenação logística e em operações urbanas, acumulando um repertório que depois seria frequentemente associado ao modo de atuação militar em morros, favelas e operações de Garantia da Lei e da Ordem em solo brasileiro.
A MINUSTAH também projetou ou fortaleceu trajetórias de figuras que ganhariam peso no governo Bolsonaro: Augusto Heleno, primeiro comandante militar da missão e depois ministro do Gabinete de Segurança Institucional; Carlos Alberto dos Santos Cruz, que também comandou tropas no Haiti e se tornou ministro da Secretaria de Governo; Luiz Eduardo Ramos, outro ex-comandante da missão, que viria a ocupar a Secretaria de Governo e a Casa Civil; além de Tarcísio de Freitas, que atuou na missão e depois se tornaria ministro da Infraestrutura. Esses resultados, entretanto, nunca romperam a lógica de fundo: a missão operava dentro de um modelo de “paz liberal”, que associava estabilização a eleições, a reformas institucionais, à segurança pública e à abertura econômica para o mercado internacional, frequentemente sem partir das demandas concretas da população haitiana. Por isso, a paz construída foi limitada a organizar a superfície do Estado, não enfrentando as estruturas profundas da crise que seguem atravessando a vida política haitiana – a pobreza, a dependência externa, a profunda desigualdade, a fragilidade institucional e as próprias interferências estrangeiras recorrentes.
As consequências negativas pesaram sobre o legado da operação. A MINUSTAH foi criticada por operações violentas em bairros populares, por denúncias de abusos cometidos por soldados e pela distância entre o discurso humanitário e a experiência concreta de parte da população haitiana. A marca mais devastadora foi a epidemia de cólera associada à presença de tropas da ONU, que contaminou mais de 800 mil pessoas e matou cerca de 10 mil, corroendo a legitimidade moral da missão. É por isso que o saldo não foi comum para Brasília e Porto Príncipe: no fim, a MINUSTAH não buscou a “estabilização” a partir da emancipação, administrou a crise sem reconstruir plenamente o país caribenho e projetou o Brasil por meio de uma longa história de tutela estrangeira no Haiti.
Assim, o jogo da próxima sexta-feira (19/06), para além de ser o quarto entre as duas seleções e o segundo oficial – após os amistosos de 1974 e 2004, e do enfrentamento em 2016 pela Copa América Centenário, todos com vitórias do Brasil – confronta o país sul-americano com a memória de sua própria política externa. Vinte e dois anos depois, com o Haiti ainda marcado por uma forte instabilidade política, pela violência armada e pela fragilidade institucional – que impediram a sua seleção de jogar em casa nas eliminatórias -, os ecos daquela paz tutelada voltam por meio do futebol: não apenas lembrando da crise haitiana e dos momentos mágicos que os craques brasileiros proporcionaram àquela população há mais de duas décadas, mas desnudando um Sistema Internacional que em discursos de paz e integração revelam, no fim das contas, verdadeiros jogos de interesse e poder.
