O que o controle sobre a água pode provocar? No noroeste da África, ele é capaz de aproximar países da guerra, redefinir alianças e alterar o equilíbrio de poder de uma região inteira. Ali, a disputa em torno do Rio Nilo e do Mar Vermelho está produzindo efeitos para muito além de suas margens. Essa nova dinâmica geopolítica tem se dado com um choque de interesses entre Egito, que tem uma absoluta dependência às águas do Nilo, e Etiópia, que experimenta rápido crescimento econômico e demográfico, mas percebe a urgente necessidade de romper constrangimentos geográficos e energéticos.
A desconfiança entre os dois países teve como pano de fundo a Grande Represa do Renascimento Etíope (GERD), que, após 14 anos de obras e cerca de cinco bilhões de dólares investidos, foi inaugurada em 2025 no leito do Nilo Azul. A construção dessa grande hidrelétrica foi realizada pelo governo com o intuito de dobrar a produção de energia no país, o que é fundamental para satisfazer seu projeto de industrialização e as crescentes manufaturas instaladas no território.
Esse gigante empreendimento de infraestrutura foi interpretado pelo Estado egípcio como um grande risco para a sua segurança. Com a maior parte de seu território composto por áreas áridas, mais de 90% de sua população habitando as margens do Nilo e 98% de seu abastecimento de água vindo deste rio, o Egito compreende qualquer alteração no fluxo hídrico como uma ameaça existencial direta à sua segurança alimentar, estabilidade econômica e coesão social. No total, 85% da água do rio vem da Etiópia. Os temores se intensificaram com o anúncio do governo etíope, em março de 2026, de que havia planos para a construção de três novas represas hidrelétricas no Nilo Azul.
Nessa perspectiva, Cairo passou a explorar uma das principais vulnerabilidades estratégicas da Etiópia: a ausência de uma saída soberana para o mar. A nação etíope, a única africana a não ser colonizada, existiu por séculos baseada em uma sociedade extremamente descentralizada, em que lideranças locais mantinham elevado poder diante do imperador. Por esse motivo, durante a onda de independências de países africanos na segunda metade do século XX, o país esteve imerso em guerras regionais. Uma delas resultou na independência da Eritreia, em 1993, ratificada por um referendo supervisionado pela ONU. Com essa separação, a Etiópia perdeu seu único acesso ao mar, tornando-se o país mais populoso do mundo cercado por terra.
Tal condição limita as opções econômicas e estratégicas Estado etíope, que adquire uma dependência de rotas e infraestruturas de transporte situadas em países vizinhos. Desta forma, 96% do comércio da Etiópia passa pelo porto do pequeno Djibuti, o que reduz sua soberania estatal e gera um ônus de dois bilhões de dólares anuais. É constituído, portanto, um imenso obstáculo a um país que almeja ser uma potência exportadora manufatureira. Somado a isso, a crise no Estreito de Ormuz teve especial impacto na Etiópia, forçada a comprar combustível emergencialmente a uma sobrevalorização de 30% a 50% e enfrentando uma grave inflação.

O Egito, no contexto da rivalidade securitiva iniciada, iniciou uma estratégia sutil de criar um bloqueio silencioso ao acesso da Etiópia ao Mar Vermelho, influenciando países costeiros. Chegou a acordos para a modernização de portos no Djibuti e na Eritreia, com o intuito de aumentar a capacidade portuária e criar vagas para navios de guerra, além de possibilitar o estacionamento de pequenos contingentes militares de elite. Antes disso, o Ministro das Relações Exteriores egípcio, ao assinar um acordo marítimo com a Eritreia, já havia proposto que a segurança do Mar Vermelho dizia respeito unicamente aos países banhados por ele, enquanto partes “não-litorâneas” não teriam vez, uma clara alusão ao país rival. Em 2024, buscando alternativas, a Etiópia buscou negociar acesso aos portos da Somalilândia, região formalmente parte da Somália, mas na prática independente. Em resposta, o governo egípcio fez fortes acusações de violação da soberania somali.
A intervenção egípcia em todas as opções da Etiópia para o acesso ao mar é, indiscutivelmente, uma estratégia de cerco para pressionar seu rival nas negociações relativas às águas do Nilo. Surgiu, nessa conjuntura, um dilema de segurança, em que os dois países estão em um processo de escalada de tensões em decorrência da incerteza que ambos têm um do outro. A situação torna-se mais difícil com uma junção desta rivalidade a outras já existentes na região, gerando o que parecem ser dois blocos distintos de países em disputa: Egito, Eritreia, Somália e Sauditas, de um lado; Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Israel, e Somalilândia, do outro.
As tensões têm experimentado um acelerado crescimento e estão longe de serem sanadas. É difícil prever se continuarão sendo um jogo de posições silencioso ou se explodirá em um conflito bélico de fato. Este último significaria catástrofe, com o envolvimento de dois países muito populosos que têm, entre si, o Sudão: país em guerra civil e epicentro da maior crise migratória da atualidade. Felizmente, porém, nem sempre escaladas de rivalidades culminam em guerras.
A geopolítica da água no Nordeste Africano, apesar de parecer muito distante da realidade brasileira, ecoa dilemas que marcaram também a história estratégica da América do Sul. O Brasil compartilha fronteiras com dois países sem litoral, Paraguai e Bolívia, que são dependentes de seus vizinhos para acessar o comércio internacional. Justamente, boa parte da historiografia aponta para as disputas pelo controle dos corpos hídricos do Cone Sul como uma das motivações por trás da Guerra do Paraguai, o maior conflito armado da história do continente.
As relações envolvendo a Usina Hidrelétrica de Itaipu constituem outro objeto de análise emblemático. Fundamental para a industrialização e segurança energética brasileiras, sua construção foi recebida com preocupação por setores militares e políticos da Argentina, que enxergavam o empreendimento como uma potencial ameaça para o equilíbrio regional. Não por acaso, a decisão de incorporar o Paraguai como sócio do projeto (mesmo com um financiamento predominantemente brasileiro, à época), pode ser interpretada como parte de uma estratégia mais ampla do Brasil para aproximar Assunção de sua esfera de influência em um contexto de competição geopolítica com Buenos Aires.
Apesar de a rivalidade entre os países da América do Sul parecer ter arrefecido nos últimos anos, os constrangimentos geográficos sempre terão influência sobre a política. Em uma ordem internacional dinâmica, que está inserida em um processo histórico em perene transformação, pouco podemos saber do futuro que a geopolítica reserva seja para a conjuntura africana, seja para a de nosso continente.
