Em nossa última coluna, elencamos o papel estratégico da Belt and Road Initiative (B&R) para a diplomacia monetária chinesa na última década. De início, para a presente coluna, convém relembrarmos os pontos centrais que estruturam nosso ponto de vista acerca da internacionalização do renminbi (ver Contornando o Dólar: A Belt and Road e a Internacionalização do Renminbi; 09/06/2026).
Partimos da noção de que, na história do Sistema Monetário Internacional (SMI), as disputas monetárias internacionais se assemelham e respondem, de certa forma, às disputas de poder e à correlação de forças entre as grandes potências. Assim, entendemos que as iniciativas chinesas para a construção de comunidades de pagamentos internacionais baseadas em sua moeda configura um desafio direto a um dos pilares centrais do poder norte-americano: a posição do dólar ao topo da hierarquia monetária internacional.
Além disso, destacamos que a estratégia chinesa para internacionalização de sua unidade de conta deu-se sob um esquema tripartite a partir de 2018: (1) pelo desenvolvimento de contratos futuros de petróleo denominados em renminbi; (2) pela abertura gradual e controlada do acesso estrangeiro aos mercados financeiros chineses; e (3) pelo cultivo de demanda de longo prazo para a moeda chinesa a partir da Iniciativa Cinturão e Rota (B&R; Belt and Road Initiative, em inglês).
Na presente coluna, focaremos no primeiro elemento do esquema. Para tanto, devemos contextualizar que a precificação de mercadorias estratégicas (ou seja, a internacionalização de dada moeda para cotação e liquidação do comércio de dada mercadoria considerada estratégica para outros países) constitui uma das mais recorrentes e relevantes estratégias para as disputas monetárias internacionais.
Nesse sentido, destacamos que a centralidade da cotação e da liquidação do comércio internacional do petróleo constitui um pilar central de estruturação para a manutenção da posição do dólar estadunidense ao topo da hierarquia monetária internacional desde o fim da IIa Guerra Mundial (1939-1945). Assim, entendemos que a precificação do petróleo em dólares constitui um dos pilares fundamentais sob o qual se assenta o poderio norte-americano e o privilégio exorbitante derivado da posição de sua moeda ao topo do SMI.
Como se sabe, a China figura entre os principais importadores de petróleo no mundo, devido à sua enorme capacidade produtiva e relativa insuficiência (vis-à-vis seu volume consumido) destas matérias primas no país. A China ampliou seu volume total de importações de 5,4 milhões de barris/dia em 2012 para 11,3 milhões de barris/dia em 2023, um aumento de aproximadamente 110% no agregado.
Colocando o foco em países do Golfo, deve-se mencionar o peso da China nas exportações totais de petróleo destes países, particularmente para a Arábia Saudita (onde a China representa 24% das exportações totais do mineral) e para os EAU (onde a China representa 25,2% das exportações totais do mineral).
Sob esse viés, e retomando temas da relação entre a B&R e a internacionalização do renminbi, mencionamos aqui seu papel de incentivo para a realização dos acordos de swaps cambiais entre a China e os países-membros da iniciativa. Em contexto, até o final do ano de 2025, a China já firmou 32 Acordos Bilaterais de Swap Cambial, avolumando um expressivo saldo de RMB 94,2 bilhões já sacados por Bancos Centrais e/ou Autoridades Monetárias estrangeiras. Dentre estes países, destacamos os Acordos de Swap Cambial com: (1) a Arábia Saudita, de RMB 50 bilhões; (2) o Catar, de RMB 35 bilhões; e (3) os Emirados Árabes Unidos, de RMB 35 bilhões.
A Arábia Saudita merece aqui uma atenção especial, devido ao seu papel histórico na construção do condomínio monetário-financeiro sob hegemonia do dólar. Em 2023, seguindo tendência dos anos anteriores, a Arábia Saudita recebeu o maior volume de investimentos nos acordos de energia da B&R, totalizando US$ 3,7 bilhões. Em novembro do mesmo ano, os Bancos Centrais chinês e saudita assinaram seu primeiro acordo de swaps cambiais em moedas locais.
Este é o pano de fundo da diplomacia monetária chinesa para o petróleo. O ponto nevrálgico, entretanto, é outro: o mercado futuro de Shanghai, a SHFE (Shanghai Futures Exchange), e o INE (os contratos futuros de petróleo).
Quanto aos contratos futuros de petróleo listados na SHFE, seu desempenho desde sua internacionalização é notável. Em 2018, os Turnovers (taxa de rotatividade diária) totalizaram RMB 25,4 trilhões, alcançando uma máxima histórica de RMB 34,9 trilhões em 2022 e, em 2023, retomando o patamar de RMB 28,7 trilhões.
Em termos de volume, em 2018, primeiro ano de abertura à participação estrangeira, a soma total chegou a 53 bilhões de barris. No ano de 2019, totalizaram-se 69 bilhões de barris, ao passo que, devido às consequências da pandemia do Covid-19 para o setor de petróleo, o total retraiu-se em 2020 para apenas 41 bilhões de barris. Nos anos seguintes, devido às tendências e disrupções da economia global, teve seu desempenho oscilante, representando, respectivamente: (1) 42 bilhões de barris em 2021; (2) 53,5 bilhões de barris em 2022; (3) 49,5 bilhões de barris em 2023; (4) 38,5 bilhões de barris em 2024; e (5) 38,8 bilhões de barris em 2025.
Agora, no que diz respeito à participação estrangeira na SHFE, seu aumento vertiginoso nos permite afirmar o sucesso da internacionalização dos contratos da INE denominados em renminbi. Em 2018, apenas 10-15% do volume total de operações eram realizados por investidores estrangeiros, ao passo que, já em setembro de 2019 totalizaram aproximadamente 20% do total, evidência de uma tendência ascendente que culminaria em 2023, quando investidores estrangeiros representaram mais de 30% do volume total diário dos contratos futuros de petróleo.
Em linhas breves, demonstraremos o enorme sucesso da diplomacia monetária chinesa para precificação e liquidação do comércio de petróleo em sua moeda.
Da abertura internacional dos contratos da INE, em março de 2018, até fevereiro de 2019, as operações da bolsa podiam ser liquidadas tanto em dólares, quanto em renminbi, apresentando apenas RMB 5.71 bilhões de entradas e RMB 3.69 bilhões de saídas de remessas denominadas em renminbi para liquidação do comércio de commodities.
Em comparação, ocorre nos anos seguintes um crescimento vertiginoso na liquidação transfronteiriça de commodities denominada em renminbi. Entre 2021 e 2022, por exemplo, observa-se um salto no volume de liquidação transfronteiriça de commodities denominada em renminbi de RMB 405,47 bilhões para RMB 985,73 bilhões. Esta tendência apresentou outro salto notável, já nos primeiros nove meses de 2023, quando o volume total da liquidação transfronteiriça de commodities denominada em renminbi alcançou a máxima histórica de RMB 1,5 trilhões.
Como desdobramentos e evidências do sucesso da estratégia chinesa, podemos mencionar que cerca de 20% do comércio internacional de petróleo já operava fora do dólar em 2023, utilizando outras moedas, dentre as quais, destacava-se o renminbi. No presente momento, esta tendência está sendo exacerbada, novamente, como efeito indesejado da própria iniciativa dos EUA, notadamente, pelas reverberações da investida anglo-israelense contra o Irã em 2026.
Segundo notícia recente da Fortune China, estimativas apontam que, até o final de março de 2026, a participação do renminbi nas liquidações do comércio de petróleo entre o Sudoeste Asiático e a China saltou para 41%, ultrapassando o euro pela primeira vez e tornando-a a segunda maior moeda de liquidação no comércio de petróleo da região. Em contexto, este desdobramento é sensível, pois significa que a participação do dólar caiu de um domínio esmagador de mais de 90%, em anos anteriores, para apenas 52%.
