Mensagens vazadas tentaram incriminar a jornalista. Como isso explica o que vemos no dia a dia em Brasília?
A Polícia Federal descobriu, no celular de Daniel Vorcaro, trocas de mensagens que mostram uma tentativa de monitorar e subordinar a jornalista Malu Gaspar, colunista da Folha de São Paulo. O ex-dono do Banco Master teria conversado com o publicitário Thiago Miranda, debatendo na ocasião como levantar informações pessoais da colunista para tentar interromper suas reportagens sobre o banco. Os diálogos citados são de março e abril de 2025, período em que ela investigava o Master.
Para além do conteúdo das mensagens, que evidencia a pequenez e o caráter mesquinho de Vorcaro e seu entorno, elas carregam um significado muito maior. Servem como uma espécie de ícone ao “fazer política” atual de Brasília, dado que refletem muito da mentalidade e do modus operandi que vemos entre os gabinetes e demais escritórios no planalto. Esse texto, então, buscará explorar esse caráter.
Apadrinhamento para além do óbvio
Uma das percepções mais clássicas ao sistema de incentivos no Brasil e sua governança é a confusão entre o que é público e o que é privado. A assimilação e uso do poder e estruturas dessa ordem para servir aos interesses, públicos e pessoais, de uma pessoa (muitas vezes carismática) é o que se chama de patrimonialismo. Essa cultura, herdada em parte dos portugueses e exacerbada pelo caráter exploratório da colônia brasileira, se faz presente em toda a sociedade brasileira. Das votações para a criação de um auxílio para alugar carros de luxo às custas do contribuinte ao corte de fila pelo filho do dono do mercado, essa “injustiça” que desconsidera a ordem pública se justificando pelas conexões pessoais do ofensor se espalham pelo nosso dia a dia. Muitas vezes, nem percebemos.
Por óbvio, é de se esperar que os representantes políticos do país apresentem um comportamento similar. Essa cultura justifica, pelo menos em partes, a ideia de socorro ao Master como foi articulada: o pagamento dos volumosos subornos por Vorcaro fez com que fundos de previdência públicos, o Banco Regional de Brasília (público) e o governo do DF direcionassem recursos públicos aos títulos podres do Master, procurando injetar fundos em sua operação e garantir conformidade com os padrões estabelecidos pelo Banco Central.
Esse episódio na trama, por sua vez, revela outro aspecto interessante e pouco explorado da cultura patrimonialista e pouco republicana brasileira: o enriquecimento rápido.
Entre apostas e subornos
Voltando à constituição da colônia, não é de todo improvável o patrimonialismo ter sido especialmente forte no país como maneira defensiva do poder estabelecido. Por que os colonos teriam lealdade a essas terras, se delas poderiam ficar ricos e ir morar na Europa, no centro? Assim, a confusão entre o público pode ter surgido de maneira a usar-se dos mecanismos do país incipiente para defender os interesses financeiros pessoais diretos dos coronéis (como posteriormente ficariam conhecidos) e, em maior escala, de seu setor.
O escritor Stefan Zweig, autor de “Brasil, país do futuro”, livro esse largamente responsável por formatar a nossa perspectiva e imaginário político como país, ilustra uma faceta disso de maneira inesperada. Nessa obra, ele relata a mania brasileira em apostas de toda sorte com o intuito de ganhar uma fortuna de maneira muito rápida, e como os bilhetes de loteria eram vendidos em toda sorte de lugar. Isso, de alguma forma, relembra a herança colonial já descrita do país.
Assim, passamos a entender o grande apelo que as casas de aposta (bets) têm com o mercado nacional, uma vez que os complexos psicológico-culturais que a fazem ter sucesso são os mesmos que moldam, pelo menos parcialmente, os grandes esquemas de corrupção. Não é difícil pensar que, em frente a uma oportunidade de ganho rápido, nossa cultura leva o brasileiro a ter reações similares.
De que maneira isso se expressa na política?
Colocados os paradigmas, voltemos às mensagens que tentavam incriminar Malu Gaspar. Podemos interpretar que a tentativa de compra da jornalista e as constantes invocações a uma vida luxuosa e abundante não refletem apenas a pequenez do caráter dos envolvidos, uma vez que esse tipo de comportamento se faz presente em diferentes sociedades. O implícito, por sua vez, é o modo que tratam o que seria a “compra” da jornalista: a ideia de que basta uma luva volumosa para silenciá-la é agravada pelo patrimonialismo e corrupção brasileiras, que prioriza oportunidades de enriquecimento rápido e um consumo exacerbado como objetivos do trabalho.
Como uma continuidade lógica disso, e pelo que a Acrópole já experienciou, esse comportamento se materializa em essência pelo consumo de determinado habitus. Certas marcas, gostos e comportamentos como a ostentação de carros, ternos e bebidas (essas, especialmente populares em Brasília) vêm como a confirmação desse comportamento patrimonialista e de busca pelo enriquecimento rápido.
Em outra obra, Celso Furtado demonstra como no auge da produção de cana no país a tabela de importações se concentrou em vinhos de luxo, tecidos de consumo de luxo da Europa, e hoje em dia a coisa não é diferente. O trabalho (e o país em maior grau) é visto como meio de inserção em uma elite com uma pretensão e aspiração cosmopolita, sem laços com o país de origem. Assim, o Brasil se torna descartável, apenas uma colônia para o aproveitamento provisório.
O lado bom dessas mensagens foi ler o choque e a frustração dos envolvidos vendo Malu não apenas recusar a oferta, preferindo seu Up aos 1,5 milhão e salário de 120 mil reais oferecidos, mas redobrando a fúria na cobertura do Master. Falta isso no jornalismo brasileiro.
