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Terras-raras se consolidam como grande trunfo chinês

Com o acirramento da competição internacional, as recentes políticas chinesas para terras-raras revelam-se uma grande vulnerabilidade para seus rivais.

Foto ilustrativa · Acrópole

A China anunciou, no fim de junho, uma lista de controle de exportações de terras-raras, barrando dez empresas estadunidenses, seguida de um mecanismo de denúncia pública para violações desse controle. A justificativa dessas restrições é impedir o acesso de minerais críticos a empresas de uso dual estrangeiras, isto é, que têm sua atuação voltada tanto para o âmbito civil, quanto para o militar. Na lista, figuram as duas companhias de terras-raras mais preponderantes dos EUA, a MP Materials e a USA Rare Earth.

A importância estratégica dessas companhias é muito grande, sendo elas cruciais para o projeto de quebrar o quasi-monopólio chinês no setor. Não por acaso, no último ano, ambas foram parcialmente adquiridas pelo Estado através de investimentos bilionários, com participação direta do Departamento de Defesa. As outras firmas sancionadas têm, todas, contratos militares com o governo dos EUA, especializando-se em drones, radares SAR e na área aeroespacial (setores dependentes do fornecimento de terras-raras).

A reação de Pequim responde diretamente às sanções que Washington impôs a empresas chinesas duas semanas antes, usando como pretexto, também, o combate à fusão civil-militar dessas companhias. No mesmo período os países pertencentes à cúpula do G7 anunciaram uma cooperação para reduzir a dependência de imãs permanentes chineses a menos de 60% de seu fornecimento total até 2030. A disputa comercial ocorreu também na área de compras públicas: enquanto os EUA atualizaram sua lista de restrições a companhias chinesas, a China contra-atacou proibindo 46 empresas americanas de fazer negócios com o Estado ou investir em seu território.

Todas essas ações estão contidas em um contexto de crescente rivalidade geopolítica entre os dois países, refletida em disputas comerciais. Tais disputas, acentuadas desde o Governo Obama, tiveram seu ápice nos pacotes de sanções do segundo Governo Trump. Apesar de parte dessas sanções ter sido revertida, o atual cenário de medidas mútuas de restrição revela como o comércio permanece sendo um relevante instrumento nas disputas de poder internacionais.

Nesse contexto, as terras raras tornaram-se um dos maiores ativos estratégicos da China atualmente. O país domina sua cadeia produtiva, detendo mais de 90% da capacidade global de processamento e refino dos minerais. Seu domínio é ainda maior na fabricação de imãs permanentes de alta performance (componentes essenciais para tecnologia eletrônica civil e militar). A ascensão chinesa no setor é fruto de um esforço de décadas por parte do Estado, uma aposta ousada em uma área que não prometia lucros a curto prazo.

Como resultado, o país adquiriu uma ferramenta de barganha e retaliação geopolítica que passou a ser posta em ação diante das pressões econômicas do Ocidente. Mecanismos de controle comerciais têm se tornado estratégias cada vez mais adotadas pela China em sua política externa, com a sucessiva ampliação de restrições para itens de uso dual, especialmente abarcando terras-raras, a partir de 2020.

Tais políticas não têm como alvo apenas os EUA. Em fevereiro de 2026, o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) havia anunciado uma lista de restrições especifica ao Japão, afetando diretamente o fornecimento de terras-raras ao país. A ação ocorreu na esteira de uma acelerada expansão que vem ocorrendo nas forças armadas japonesas, somada às declarações da primeira-ministra de extrema-direita, que confrontaram diretamente a política externa chinesa para Taiwan.

No início daquele mesmo mês, o Japão havia sido um dos 55 países presentes em um fórum promovido por Washington para criar um bloco comercial de minerais críticos, voltado para combater hegemonia chinesa no setor. A Coréia do Sul, mesmo sendo outra participante do fórum, se viu obrigada a buscar um diálogo com a China para evitar disrupções no abastecimento de terras-raras para sua indústria.

A União Europeia também encara com preocupação a hegemonia chinesa no setor. Diante da Guerra da Ucrânia, os países-membros do bloco elegeram a segurança energética e a defesa como metas cruciais. O grande gargalo, porém, é que ambas as frentes dependem crucialmente do fornecimento de terras-raras, minerais indispensáveis tanto para a transição verde (energia eólica e solar) quanto para a indústria bélica (radares, caças e mísseis).

Os temores também se refletem para além do setores estratégicos: economistas do Banco Central Europeu (BCE) estimaram, em 2025, que mais de 80% das grandes empresas europeias estão a, no máximo, três intermediários de distância de um produtor chinês de terras-raras. Dessa maneira, não surpreende as restrições chinesas a exportação desses minerais em 2025 terem causado pânico no bloco europeu.

A estratégia da China, portanto, tem se provado muito eficiente em pressionar seus rivais. A resiliência destes últimos dependerá de sua capacidade de alcançar as tecnologias chinesas de minerais críticos, um catch up tecnológico que decerto demandará volumosos investimentos e coordenação dos Estados. O caso demonstra perfeitamente bem que, na competição internacional, não dominar o topo das cadeias globais de valor estratégicas tem como consequência, forçosamente, a dependência.

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