Um racha na direita parece mais iminente que nunca. Quais são as vertentes que brigam?
A semana do dia 24 de junho foi marcada pelos unfollows de Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente, a Carlos e Flávio Bolsonaro. O episódio aconteceu após suposta ligação por telefone, onde Flávio teria sido muito ríspido em relação a algumas demandas da ex-primeira dama, desfazendo assim a unidade política de outrora.
Esse cenário, por mais dramático que tenha sido à bolha bolsonarista, não choca a ninguém. As movimentações políticas por parte de Michelle e aliados, despercebidas pela sua sutileza e por ocorrerem principalmente nos bastidores, explicitaram que esse tipo de situação iria se instalar muito antes da ligação ou do vídeo. Mas agora, quem herda a legitimidade? Como fica distribuído o poder?
Uma breve consideração ao bolsonarismo não leal
Desde a eleição municipal de 2020, onde o que chamamos de centrão cresceu desproporcionalmente a mais que em anos anteriores, vemos um fenômeno exótico no bolsonarismo. O que antes se caracterizava por um eleitor indignado e oriundo das ruas e que expressava suas ideias (periféricas no debate público) pelo meio digital, passa a ver uma presença crescente de apoio institucionalizado e de seguidores leais muito grandes.
Esses dois não são iguais (ao menos, não no princípio). De um lado, vemos a mescla do fenômeno eleitoral popular com a política institucional, trazendo lideranças de nada ideológicas ao movimento bolsonarista, assim, prejudicando a “pureza” do mesmo. De outro lado, o crescimento exacerbado de figuras paralelas ao Bolsonaro-pai dentro do próprio campo (sobretudo na figura de Nikolas Ferreira) estabelece lideranças paralelas impossíveis de serem endereçadas e disciplinadas pelos chefes do bolsonarismo original, o que essencialmente dilui seu poder por tornar a marca Bolsonaro dependente de uma maior distribuição de dividendos.
É recorrente nos textos da Acrópole a colocação da inabilidade e impotência do bolsonarismo hoje, marcado pela ausência de um poder real e concreto. A falta de infiltração no Estado e de meios políticos institucionais sólidos (sobretudo um partido político) deixou a liderança desse campo ideológico em uma posição difícil, uma vez que se via obrigada a se unificar em torno de si mesma. Com o carisma e legitimidade inegáveis de Jair, a crise foi postergada. Com Flávio, no entanto, os flancos se abriram de maneira especialmente maestral.
Assim, os vetores se concertam à formação de uma direita não leal à família. E é o que vemos.
Como age essa seção do bolsonarismo?
Vale colocar que apesar das figuras proeminentes nesse concerto ideológico dialogarem entre si, elas não se organizam em torno de alguma causa, liderança ou instituição em comum. Agem, portanto, como ilhas que buscam resistir às marés bolsonaristas tradicionais, que os tentam puxar de volta ao mar.
Uma de suas mais proeminentes instituições, hoje, é o Partido Novo. Fundado por João Amoedo, a legenda rapidamente se distanciou da ideologia liberal e pró-mercado que a ergueu uma vez que foi tomada pelo bolsonarismo incipiente de 2016-2018. Com o passar dos anos, seus quadros e seu encolhimento a forçaram a se tornar uma linha auxiliar ao bolsonarismo tradicional, casando seu voto ao das lideranças bolsonaristas ao com seus candidatos vendidos como mais ideologicamente puros que a corrente principal. Hoje, atraem essa direita muito por causa de sua institucionalidade, que carece em uma legenda com a liderança concentrada como no PL.
De outro lado, quem engloba de maneira mais evidente essa postura é Nikolas Ferreira. Aliado direto de Michelle nos bastidores e na religião, o atual deputado explodiu em popularidade no período entre as eleições de 2020 e 2022, chegando a ter aproximadamente 1,5 milhão de votos a deputado federal. Esse ganho de legitimidade, contudo, não acompanhou o desempenho parlamentar: seu mandato é tido como diminuto e suas votações idênticas às orientações de Valdemar (quando não prejudicam sua popularidade). O deputado tem feito movimentações para tentar deslegitimar a sucessão de Bolsonaro, buscando a si os louros desse embate.
Outras figuras, menores, revoltam em torno de ambos os vetores descritos. Assim, cabe refletir em como se concertaram.
Uma aliança anti-rei
Uma vez que esse campo se vê preso aos interesses de Valdemar Costa Neto (presidente do PL, que abriga todo o bolsonarismo de maneira geral e seções do centrão), as insatisfações passam a se transformar em faíscas públicas. Tal como a ligação de Michelle, o estopim desses embates geralmente têm sido as indicações de Jair aos cargos regionais para o pleito de 2026, como a de Carlos Bolsonaro ao Senado em Santa Catarina e a articulação com Ciro Gomes (PSDB). Assim, ataques públicos a Flávio (tal como a eventual recordação de seu envolvimento com Daniel Vorcaro) se tornam cada vez mais presentes.
Em outra ocasião, ficou-se sabendo que uma briga grande na mansão dos Bolsonaro, entre Michelle e Jair, acerca de sua sucessão, teria incomodado os vizinhos devido ao alto barulho. Em seguida, vimos a ex-primeira dama sinalizando em suas redes sociais a insatisfação com o projeto de poder do marido e questionando sua lealdade quanto a ele.
Ao fim, vemos cada vez mais bolhas de resistência à arbitragem do pai na política (sobretudo nas tensões entre líderes regionais, diferindo entre si a lealdade à família) e uma escalação cada vez maior dos ataques à liderança principal do campo. Não é exagero pensarmos que, nesses termos, Flávio concorre à presidência principalmente para concertar a liderança carismática do campo em torno de uma figura da família, refazendo o pacto carismático firmado em 2018. A hegemonia na direita, pelo que parece, é um dos interesses principais do candidato e de suas principais influências.
