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O Complexo Militar-Industrial-Acadêmico-Dataficado: as Big Techs e a Guerra

Na coluna da última semana (25/06), apresentamos a relação histórica e inseparável das Big Techs com o Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA. Agora, discorreremos sobre a incorporação do progresso técnico da 4a Revolução Industrial no setor militar norte-americano e a emergência do Complexo Militar-Industrial-Acadêmico-Dataficado.

Foto ilustrativa · Acrópole

Conforme nossa última coluna (ver O Complexo Militar-Industrial-Acadêmico e as Big Techs: uma história mal contada, 25/06), as Big Techs nunca estiveram separadas do setor militar norte-americano e, pelo contrário, seu sucesso deve-se às diretrizes estratégicas do Complexo Militar-Industrial-Acadêmico dos EUA para desenvolvimento incessante de inovações tecnológica de uso-dual civil-militar.

Assim, partimos da noção de que, neste quartel do século XXI, as Big Techs emergiram como ativos estratégicos de seus Estados-Nacionais não apenas para as disputas pela riqueza, como também pelo poder no Sistema Internacional.

Do lado do poder, seja pelos serviços oferecidos na extração, na mineração ou na análise sistemática de dados, seja o desenvolvimento de grandes modelos de linguagem para inteligência artificial, seja pelo auxílio logístico às operações de combate físicas ou cibernéticas, seja pelo seu potencial uso em táticas de psy-op (Operações Psicológicas) ou de táticas de guerra não-convencional de 5ª ou de 6ª geração, a crescente interligação entre o potencial civil e militar do setor nos permite afirmar sua importância estratégica nas atividades da guerra.

Em contexto histórico, após sua vitória na Guerra Fria (1947-1991), os EUA: (1) lideraram o mercado mundial de telecomunicações e impuseram o seu modelo de produção, padronizando e ampliando sua forma de gestão do capital e da produção globalmente; e (2) demonstraram, na Guerra do Golfo (1990-1991), o sucesso das tecnologias de ponta desenvolvidas por seu Complexo Militar-Industrial-Acadêmico, no que ficou conhecido como a Revolução em Assuntos Militares.

Logo, o Império Militar Global dos EUA, erguido sobre os escombros da vitória estadunidense na Guerra Fria, empreendeu um significativo processo de construção de um Sistema de Vigilância e Punição Global. Nesse sentido, em resposta à Guerra ao Terror (2001), a aprovação do Ato Patriótico (2001), por exemplo, ressignificou a relação entre as agendas de segurança e defesa dos EUA e suas Big Techs.

A Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), por exemplo, fundada em 1958 para operações de guerra cibernética, ampliou desmesuradamente a escala e o escopo de sua capacidade de vigilância e de controle dos fluxos de dados em escala global. Edward Snowden, ex-analista de sistemas da NSA, denunciou os pilares da montagem e descreveu os principais projetos deste sistema de monitoramento e de vigilância em escala global.

Já no início da década passada, os EUA ampliaram o grau de institucionalização de sua relação estratégica com as empresas do setor. Em 2011, criaram o Big Data Senior Steering Group (BDSSG), visando impulsionar uma inciativa de larga escala rumo às novas tecnologias de extração, de mineração e de análise sistêmica de dados. O BDSSG se tornou o principal órgão coordenador de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) em ciência de dados do país e, posteriormente, transformou-se na Big Data Interagency Working Group (BDIWG), incorporando membros de diversas agências governamentais, como servidores da DARPA, do DoD, da NASA (National Aeronautics and Space Agency) e da NSA.

Em 2012, lançaram o Big Data Research and Development Initiative (BDR&DI), concedendo mais de US$200 milhões de financiamento através de seis departamentos federais (dentre eles, o DoD e a DARPA) com o objetivo de aprimorar as capacidades governamentais de extração, de mineração e de análise sistêmica de dados digitais complexos. Por fim, em 2015, promulgaram o Cybersecurity Information Sharing Act (CISA), concedendo autonomia para que empresas realizem práticas de espionagem privada e que agências estatais e organizações privadas compartilhem informações entre si em casos de ataques cibernéticos.

O salto qualitativo da relação entre as Big Techs e a Guerra, entretanto, configura uma problemática recente. A grande mudança provém do fato de que, como as Forças Armadas dependem de volumes gigantescos de dados e da IA, as big techs estão no centro estratégico da gestão da guerra. A dataficação e o grande poder computacional adotado para o treinamento de modelos de IA e para a realização de inferências em tempo real levaram as Forças Armadas dos Estados Unidos a depender das infraestruturas de dados, do provimento de nuvem e dos frameworks das Big Techs.

As Big Techs, portanto, se tornaram indispensáveis para a gestão da guerra. O Complexo Militar-Industrial-Acadêmico se tornou um Complexo Militar-Industrial-Acadêmico-Dataficado. As Big Techs fornecem as tecnologias e as infraestruturas para que a infinidade de dados extraídos e coletados em guerra seja utilizada em operações táticas, isto é, em combates e em verdadeiras caçadas virtuais.

À título de ilustração da dimensão desta relação entre as Big Techs e o setor militar dos EUA, a Tabela 1 fornece uma seleção dos principais contratos firmados entre as empresas do setor e o Estado norte-americano entre 2013 e 2022.

Tabela 1: Contratos Militares plurianuais entre Agências ou Departamentos do Estado Norte-Americano e as principais empresas do setor (2013-2022)

Ano/AgênciaEmpresa(s) Contratada(s)Valor (em US$)Natureza dos serviços
2013 – CIAAmazon600 milhõesNuvem
2017 – DoD (Projeto Maven)Amazon e Microsoft50 milhõesDrones
2020 – CIA (Commercial Cloud Enterprise)Alphabet, Amazon, Microsoft e Oracle“Dezenas de bilhões”Serviços de Nuvem
2021 – DoD (HoloLens)Microsoft21,9 bilhõesVisores Especializados
2022 – NSA (Projeto “Wild and Stormy”)Amazon10 bilhõesServiços de Nuvem
2022 – DoD (Projeto “Joint Warfighting Cloud Capability”)Alphabet, Amazon, Microsoft e Oracle9 bilhõesInfraestrutura de Nuvem para Defesa e Segurança
Fonte: Elaboração própria, com base em Coveri et al, 2024, p.26

Dois projetos nos são particularmente interessantes para a investigação desta nova problemática: o Projeto “Nimbus” (2021) e o Projeto “Joint Warfighting Cloud Capability” (2022).

O Projeto Nimbus (2021), por exemplo, internacionalizou a atuação das Big Techs dos EUA à serviço da guerra. A licitação deste projeto foi anunciada pelo Ministério das Finanças de Israel, com o volume de 4 bilhões de shekels (aproximadamente US$ 1,2 bilhões) para a Google e a Amazon, que venceram a licitação sobre empresas como Microsoft e Oracle.

O objetivo do projeto compreendia a construção de uma infraestrutura de nuvem local para as Forças de Defesa de Israel, além de serviços de tratamento de dados complexos e de implementação de soluções de inteligência artificial (IA) para o mapeamento e a vigilância de possíveis alvos em Gaza.

O Projeto Joint Warfighting Cloud Capability, de dezembro de 2022, configura o mais ambicioso projeto de integração entre as Big Techs e o DoD, segundo nossa perspectiva. Seu objetivo consiste em prover infraestruturas de computação em nuvem para atender às necessidades operacionais das Forças Armadas dos EUA em terra, em mar, no ar, no espaço sideral e no espaço cibernético.

As dimensões do projeto são enormes, pois os contratos do JWCC com cada uma das quatro empresas podem valer até 9 bilhões de dólares, totalizando 36 bilhões até 2028. Trata-se de um arranjo do tipo indefinite-delivery/indefinite-quantity (Idiq), ou seja, ele não estabelece previamente uma quantidade fixa de produtos ou serviços a serem entregues, mas define um valor máximo e condições gerais para futuras encomendas. Assim, as Forças Armadas dos EUA podem requisitar rapidamente serviços digitais e incorporá-los em uma missão tática de combate on demand.

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