Voltar ao portal /

Da proibição à Copa: Brasil celebra pioneiras, mas ainda precisa provar que aprendeu com a própria história.

O Brasil deu um passo adiante e, ao mesmo tempo, foi chamado a encarar sua própria trajetória: a de um lugar que fez do futebol sua marca, mas negou às mulheres a devida estrutura e reconhecimento. O torneio no país é uma chance de confrontar esse passado e construir um…

Foto ilustrativa · Acrópole

A um ano da Copa do Mundo Feminina de 2027, o Brasil começa a fazer algo que demorou demais: olhar para trás e reconhecer, também materialmente, as mulheres que mantiveram o futebol vivo quando o próprio país tentou expulsá-las dele. A Lei Geral da Copa prevê o pagamento de R$ 500 mil a cada atleta que representou o Brasil no Torneio Experimental da Fifa, em 1988, e na primeira Copa do Mundo Feminina, em 1991, como forma de reparação histórica às pioneiras – que muitas vezes ganhavam, no futebol de clubes, um “bicho” por vitória, não recebendo salário fixo. Entre essas personagens está Mariléia dos Santos, famosa nos gramados como Michael Jackson, que atuou no Ministério do Esporte como Diretora de Políticas de Futebol e Promoção do Futebol Feminino, e foi a principal responsável pela articulação dessa indenização. Além disso, no Dia Nacional do Esporte, a Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro prestou homenagem, no Theatro Municipal, às pioneiras do futebol feminino brasileiro, em uma cerimônia que marcou a contagem regressiva para o Mundial. Depois, Marisa, Danda, Fia, Fanta e Pelezinha – responsável pelo primeiro gol brasileiro em mundiais femininos – participaram da iluminação do Cristo Redentor em verde e amarelo.

O torneio chegará ao “país do futebol” que, durante boa parte do século XX, desprezou as praticantes – tratando-as até como ameaçadoras e “desviadas” moralmente – e que, agora, no século XXI, apesar de avanços, ainda enfrenta desafios profundos, como o abismo orçamentário e salarial entre as modalidades masculinas e femininas. Essa história começa antes mesmo da proibição formal. O futebol brasileiro nasceu atravessado por recortes de classe, raça e gênero: primeiro como prática das elites brancas e masculinas, depois como espaço de disputa em torno da entrada de pobres e negros, e por muito mais tempo como território fechado às mulheres. O Brasil consagrou o futebol como sua assinatura, enquanto deixava em aberto uma pergunta decisiva: todo mundo realmente poderia aparecer como protagonista dessa história?

Das origens à proibição

Aira Fernandes Bonfim mostra que os primeiros registros da prática no país remontam a 1915 e aparecem ligados a espaços de lazer, festas esportivas, apresentações circenses e campos suburbanos. Eram experiências muitas vezes vistas como curiosidade e divertimento, mas que também abriam fissuras importantes na ordem social da época: mulheres ocupavam clubes, praças, arquibancadas e, pouco a pouco, o próprio campo.

A resposta institucional, no entanto, viria pela via da interdição. O Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, determinava que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. A redação não citava o futebol nominalmente, mas autorizava uma política de exclusão baseada em concepções morais sobre o corpo e o comportamento das mulheres. O futebol, assim, era associado à força, ao contato físico e à exposição pública – elementos que contrariavam o ideal feminino dominante, ligado à domesticidade, à maternidade e à contenção dos gestos. A legislação oriunda do Estado Novo se materializava por meio do Conselho Nacional de Desportos, órgão subordinado ao Ministério da Educação, para impedir que o futebol feminino se consolidasse como prática pública e organizada. Jogos eram cancelados por ordem administrativa, partidas podiam ser interrompidas pela polícia e a modalidade era empurrada para os limites da informalidade.

Araguari Atlético Clube: uma forma de subversão 

Mesmo sob esse bloqueio, algumas experiências conseguiram driblar a proibição por caminhos laterais. O caso mais expressivo é o do Araguari Atlético Clube, no Triângulo Mineiro. Conforme matéria de Sofia Cunha, em 1958, ainda sob a vigência do decreto varguista, a diretora Isolina França Soares procurou Ney Montes, dirigente do clube, para organizar uma partida beneficente em favor da Escola Estadual Visconde de Ouro Preto. A proposta não se apresentava como um campeonato oficial, mas sim como evento filantrópico, local, e quase excepcional. Foi por essa brecha que mais de 40 meninas participaram de uma peneira, com autorização dos responsáveis, e dali nasceu uma equipe que jogou em campos oficiais, atraiu imprensa, lotou arquibancadas e passou a circular por cidades de Minas Gerais e de outros estados, sendo a primeira experiência documentada de profissionalização da modalidade. Todavia, no auge dessa trajetória o time foi denunciado, o decreto voltou a ser mobilizado e a iniciativa foi interrompida em 1959, menos de um ano depois da estreia.

Da Ditadura ao distensionamento

No ano de 1965, já na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), o Conselho Nacional de Desportos tornou explícito o que o decreto de 1941 deixava em aberto e incluiu o futebol de campo, o futebol de salão, o futebol de praia, o polo aquático, o rúgbi, o beisebol, o halterofilismo e as lutas entre as práticas proibidas para mulheres. Mesmo sob a lógica de vigilância do período, mulheres seguiram jogando e resistindo nas frestas do cotidiano – em campos de várzea, praias, clubes, periferias, quadras e circuitos amadores -, ainda sem estrutura profissional e sem o direito pleno de existir diante das instituições esportivas. Por outro lado, a pressão pela legalização começaria a ganhar corpo nos anos 1970: em 1977, a CPI da Mulher questionou a posição subalterna das mulheres na sociedade brasileira e também tocou na proibição esportiva, todavia, a comissão debatia futebol feminino sem ouvir jogadoras, justamente porque décadas de clandestinidade haviam impedido a formação de grandes referências públicas da modalidade. Ainda assim, depoimentos como o de Maria Lenk, maior nadadora brasileira de todos os tempos, ajudaram a desmontar a lógica moral e médica que sustentava o veto. Ela argumentava no Congresso Nacional que impedir as mulheres de jogar futebol limitava a presença feminina no esporte como um todo, porque o futebol, sendo o esporte nacional, produzia ídolos, referências e caminhos de imitação quase sempre reservados aos homens.

Em 1979, o CND abriu uma primeira brecha ao permitir que mulheres praticassem esportes já regulamentados por entidades internacionais. No futebol, porém, a liberação plena veio só em 1983, passando a poder ser praticada nos estados, municípios e territórios, sob a tutela das federações e da CBF. Em 1981, surgiu o primeiro torneio de futebol de praia feminino; no ano seguinte, a segunda edição, patrocinada pela Coppertone, levou milhares de pessoas à praia. Desses circuitos veio parte importante das jogadoras que integrariam o Radar.

Esporte Clube Radar

O Esporte Clube Radar, fundado em Copacabana e presidido por Eurico Lira, formou sua equipe feminina em 1981 e rapidamente se tornou o principal nome do futebol feminino brasileiro. O clube começou nas quadras, passou pelas areias e chegou aos campos com uma proposta mais organizada: treinamentos, competições, atuação direta pela oficialização da modalidade e ajuda financeira –  embora esses pagamentos fossem baixos, irregulares e muitas vezes disfarçados como ajuda de custo ou premiações por vitória (“bicho”). A modalidade ganhava manchetes, atraía curiosidade e começava a ocupar espaço nos jornais, mas Leila Salvini e Wanderley Marchi Júnior, ao analisarem a cobertura da revista Placar nos anos 1980, mostram que a imprensa reconhecia a habilidade das jogadoras, porém, frequentemente o enquadrava pela ótica da beleza, do charme e de uma feminilidade normativa. 

O Radar nos anos seguintes colecionou títulos, ajudou a impulsionar a formação de novas equipes e funcionou como uma espécie de laboratório de profissionalização em um futebol que acabara de sair da ilegalidade. Em 1982, o clube conquistou a Women’s Cup of Spain, derrotando seleções europeias, e, nos anos seguintes, dominou o cenário nacional. Em 1987, a CBF já cadastrava milhares de clubes e jogadoras, sinal de que a modalidade havia crescido muito mais rápido do que as instituições pareciam dispostas a acompanhar. Em 1988, o Rio de Janeiro organizou seu Campeonato Estadual e o Radar representou o Brasil no I Torneio Internacional de Futebol Feminino na China, terminando em terceiro lugar. Mas o mesmo ano também marcou o início da decadência do Radar. Depois de mais de 300 partidas, dezenas de jogos no exterior e uma sequência de títulos nacionais e internacionais, o clube paralisou as atividades voltadas ao futebol feminino.

A ascensão da Seleção Brasileira

Nos anos 1990, a modalidade entrou de vez no calendário internacional, mas ainda sem a mesma base doméstica que sustentava o futebol masculino. A primeira Copa do Mundo Feminina da FIFA, realizada em 1991 na China e contando com a presença brasileira – também por meio de muitas egressas do Radar -, marcou a entrada formal das seleções em uma vitrine global, tendo o país, no mesmo ano e em 1995 conquistado o torneio sul-americano. Quatro anos depois, em 1996, o futebol feminino passou a integrar o programa olímpico. O Brasil, que havia acabado de regulamentar a modalidade pouco antes, precisou competir internacionalmente contra potências como os próprios anfitriões, a Suécia e as campeãs estadunidenses carregando décadas de atraso interno.

Ainda assim, a resposta em campo foi rápida. Em 1999, nos Estados Unidos, a seleção brasileira alcançou o terceiro lugar na Copa do Mundo, com Sissi como uma das artilheiras do torneio. A partir dos anos 2000, a modalidade ganhou novos rostos conhecidos: Formiga se tornou símbolo de longevidade; Cristiane, referência olímpica; e Marta, maior jogadora da história, tornou-se seis vezes melhor do mundo e carregou a seleção brasileira a uma era de enorme visibilidade. As três se tornaram vozes importantes na luta por reconhecimento, igualdade e dignidade dentro e fora dos gramados.

O auge simbólico desse ciclo veio em 2007. Na Copa do Mundo da China, o Brasil chegou à final, venceu os Estados Unidos por 4 a 0 na semifinal e viu Marta conquistar a Bola de Ouro e a Chuteira de Ouro do torneio. A derrota para a Alemanha na decisão não apagou o impacto daquela campanha: a seleção brasileira jogava um futebol reconhecido mundialmente e protagonista. No mesmo ano, na final dos Jogos Pan-Americanos, a goleada por 5 a 0 sobre os Estados Unidos, no Maracanã lotado, deu à equipe a imagem poderosa de uma modalidade que, enfim, parecia ocupar o centro dos palcos.

Vale destacar, porém, que esse protagonismo feminino dentro de campo quase nunca se repetiu à beira dos gramados. Em quase quatro décadas de trajetória, a Seleção Brasileira feminina principal teve apenas duas técnicas mulheres: Emily Lima e Pia Sundhage. A modalidade ainda convive com presença reduzida de mulheres em cargos de comando, seja nas comissões técnicas, nas diretorias, nas federações ou nas estruturas decisórias dos clubes. A chegada de Cris Gambaré à coordenação de Seleções Femininas da CBF indica um avanço importante no campo da gestão, mas sua exceção também reflete o desequilíbrio.

O cenário dos clubes brasileiros

O futebol feminino aparecia com força em grandes decisões, mas desaparecia com facilidade no intervalo entre elas. As pratas olímpicas em 2004 e 2008, e mais tarde em 2024, confirmaram a capacidade competitiva da seleção; ao mesmo tempo, a rotina dos clubes, das categorias de base e das competições nacionais seguia marcada por descontinuidades. A Copa do Brasil Feminina, criada em 2007, foi durante anos uma das principais competições nacionais, mas saiu do calendário após 2016 e só retornou em 2025. Além disso, somente nos últimos anos a CBF passou a estruturar o Campeonato Brasileiro Feminino em divisões nacionais, com Série A1, A2 e A3, além da Supercopa. Durante muito tempo, o futebol feminino brasileiro dependeu de projetos isolados, parcerias instáveis, ciclos de investimento curtos e iniciativas quase heróicas, estimulando as craques a buscar o desenvolvimento de suas carreiras no exterior. 

Na última década, por um lado, consolidaram-se projetos vitoriosos e estruturados no plano nacional e até internacional, como Santos, Palmeiras, Ferroviária, São Paulo e, sobretudo, Corinthians, hexacampeão da Libertadores e atual vice mundial. Por outro, a expansão recente da modalidade também revelou sua dependência de mecanismos ainda frágeis. A exigência de que clubes masculinos de elite e participantes de competições continentais mantivessem equipes femininas e categorias de base obrigou muitos departamentos a olhar para uma modalidade antes facilmente ignorada. A medida ampliou o número de equipes, aproximou marcas tradicionais e deu mais visibilidade ao calendário, mas também abriu uma pergunta incômoda: quando um time feminino nasce como requisito de licenciamento ligado ao futebol masculino, sua permanência está garantida ou, em muitos casos, depende da conveniência e do desempenho dos homens? Já há respostas para essa pergunta: o Athletico Paranaense encerrou seu departamento feminino após o rebaixamento do time masculino para a Série B, em 2024; o Fortaleza seguiu caminho parecido no fim de 2025, mesmo depois de conquistar acesso inédito à Série A1 do Brasileirão Feminino, alegando restrições orçamentárias. Já América Mineiro e Santos, que também vivenciaram rebaixamentos nos últimos anos, mantiveram suas equipes femininas.

O que devemos almejar para a Copa do Mundo?

Por isso, a Copa de 2027 precisa ser a oportunidade de dar um passo a mais na preparação e no fortalecimento do futebol feminino nacional, visto que o Brasil já mostrou que tem material humano para ser uma das potências. Além disso, hoje, há um elemento novo: o real interesse do público. Como aponta Milly Lacombe, a partir de dados da FSports, o futebol feminino já reúne 58 milhões de fãs no Brasil, cresceu 57% nos últimos anos, tem mais da metade da população declarando interesse pela modalidade e viu as buscas sobre o tema no Google se multiplicarem por dez na última década. 

É fato que esse movimento já tem sido ensaiado. Como já citado, a CBF ampliou o calendário, estruturou o Brasileirão Feminino em mais divisões, trouxe a Copa do Brasil de volta, consolidou a Supercopa e passou a buscar maior exposição para suas competições; o Estado, por sua vez, também entrou no tabuleiro com a Lei Geral da Copa, a previsão de investimentos públicos em operação e infraestrutura de legado e medidas de reconhecimento às pioneiras do futebol feminino brasileiro; além disso, federações, marcas, veículos de transmissão e entidades privadas começam a perceber que a modalidade não é apenas um nicho, mas um verdadeiro mercado cultural e rentável.

Mas esse crescimento só terá sentido se vier acompanhado de incentivos capazes de afastar, de forma concreta, os fantasmas que sempre rondaram a modalidade: o improviso, a descontinuidade, o machismo institucional e a ideia de que o futebol feminino pode ser tratado como apêndice do masculino. O legado de 2027 precisa passar por investimentos públicos e privados, uso mais inteligente das leis de incentivo, apoio a projetos de base, financiamento para clubes que sustentem equipes femininas de maneira contínua, formação de treinadoras, árbitras e dirigentes, além de políticas que levem o futebol feminino para escolas, periferias, cidades médias e regiões historicamente fora dos centros. A Copa pode ser um grande palco, mas seu verdadeiro valor estará em transformar a sua visibilidade em permanência, estrutura e autonomia financeira.

Leia também

O retorno do carvão: um novo plano energético chinês para uma era de crises

Sob o peso da crise energética e da competição global por recursos, Pequim adapta…

Não existem jovens petistas: como o problema de idade no PT afeta o pleito de outubro

O PT é o partido mais bem-sucedido da história da nova república, talvez na…

Novo esquema, velhas táticas: como Alcolumbre ganha com o esquema do Master

A fraude financeira do Master começou na Bahia, muito ligada ao PT local, mas…