Voltar ao portal /

O Brasil e as célebres cantoras do Sul Global

Mercedes Sosa, Cesária Évora, Miriam Makeba, Omara Portuondo e Chabuca Granda estão entre as principais vozes que atravessaram o Brasil por meio de discos, palcos e parcerias. Elas fizeram da música um caminho de aproximação entre o país e aquilo que também o conecta a outras experiências do Sul Global…

Foto ilustrativa · Acrópole

Há pontes que ligam o Brasil a outras geografias do Sul Global: são as músicas cantadas e compostas por intérpretes femininas, que passam por lugares como Cabo Verde, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Cuba, África do Sul e Líbano: às vezes aparecem em parcerias diretas; às vezes em discos, nos palcos e na construção dos repertórios de ambas as partes; e, em outros momentos, em laços históricos mais profundos, como o passado colonial, a diáspora, o exílio e as ditaduras que marcaram boa parte do século XX.

(Acompanhe o texto ouvindo a playlist: https://open.spotify.com/playlist/4DrV4O7cCkYS8N5pKP27Nd?si=uRiVcASOSGOSdH_74_CL9w&pi=t_E44nLyTci9_)

Mercedes Sosa (1935-2009)

Milton Nascimento, Chico Buarque, Mercedes Sosa, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes Sosa entra nessa rota como uma referência da música folclórica argentina e da Nueva Canción – movimento musical latino-americano surgido nos anos 1960 que combinava tradições regionais e letras engajadas contra o imperialismo, as desigualdades sociais e as ditaduras que atravessavam o continente. Perseguida pelo regime argentino, Mercedes também viveu o exílio, experiência que reforçou sua imagem como voz de solidariedade aos deslocados políticos da América Latina. Nesse contexto ela passou a dialogar com o Brasil ao longo dos anos 1970, quando a MPB acenava fortemente para a região.

O ponto de virada dessa escuta brasileira veio mais precisamente em 1976, quando Mercedes gravou “Volver a los 17”, da combativa cantautora chilena Violeta Parra (1917-1967), ao lado de Milton Nascimento no álbum Geraes, clássico de “Bituca”. Ainda cantando a faixa, Mercedes participou do programa Chico & Caetano, da TV Globo, em 1986, episódio em que Chico Buarque e Caetano Veloso receberam Gal Costa e Milton Nascimento: um encontro de artistas latino-americanos centrais para a redemocratização no continente. A cantora argentina ainda estabeleceu laços com Beth Carvalho e com Kleiton & Kledir – de quem gravou “Vira Virou”, registrada como “Vira Viro”, no álbum ¿Será Posible el Sur? (1984), com participação da dupla -, além de ter voltado ao Brasil em turnês, como a de 2008, com apresentações em São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis. Nesse mesmo período, passou pelo Rio para receber a Ordem do Mérito Cultural, além de ter gravado Coração Vagabundo junto ao próprio compositor, Caetano Veloso, e O Que Será (Chico Buarque) com Daniela Mercury, respectivamente para os discos Cantora e Cantora 2, de 2009, póstumos.

Cesária Évora (1941-2011)

Marisa Monte e Cesária Évora

Já a cabo-verdiana Cesária Évora levou a morna e a coladera de Mindelo para o mundo cantando em português, mas, sobretudo, em crioulo. Transcendendo a questão do idioma, sua música falava uma língua afetiva imediatamente compreensível para o Brasil: a das festividades populares como aparece em “Carnaval de São Vicente” (João Velso Rodrigues), quando a ilha é cantada como “um Brazilin”, “chei di ligria, chei di cor”; somada a da partida e da ausência por meio do oceano, condensada no clássico “Sodade”, de Armando Zeferino Soares, canção associada à nostalgia dos membros da diáspora, e popularizada por Cesária no álbum Miss Perfumado (1992). Não à toa, portanto, é forte o elo de Cesária com a música de Dorival Caymmi, célebre por cantar a melancolia inscrita na gramática das águas: ela gravou com Marisa Monte “É doce morrer no mar”, composta pelo músico baiano e Jorge Amado, como faixa bônus para o lançamento brasileiro do aclamado Café Atlântico (1999), em uma versão produzida pela própria cantora carioca. Além disso, a “Diva dos Pés Descalços” realizou oito shows no Brasil, manteve diálogo artístico com nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil e chegou a explicitar sua admiração pela cantora Ângela Maria.

Miriam Makeba (1932-2008)

Miriam Makeba e Sivuca

Soma-se também Miriam Makeba, conhecida como “Mama Africa”, cantora, compositora, atriz e ativista sul-africana contra o apartheid, que transformou a própria voz em um canhão contra o regime racialmente segregacionista. Sua trajetória foi marcada pelo exílio e pela afirmação de repertórios africanos em um mercado musical que, muitas vezes, consumia a África como exotismo, mas resistia a ouvi-la como sujeito político e musicalmente sofisticada. No Brasil, sua presença também passou pela recepção de “Pata Pata”, sucesso que explodiu internacionalmente nos anos 1960 e chegou ao país em um momento de crescente escuta para sonoridades negras, africanas e diaspóricas – porém, o elo com o Brasil vai além: Sivuca, multi-instrumentista paraibano, foi o arranjador do sucesso lançado em 1967, e integrou o universo musical de Makeba nos Estados Unidos, participando de discos e apresentações da cantora.

Makeba ainda incorporou o repertório brasileiro à sua própria voz: gravou “Chove Chuva”, de Jorge Ben Jor, no álbum Makeba Sings (1965), e a apresentou ao vivo, como no registro de 1966 em Estocolmo. Mais tarde, também voltaria a Jorge Ben em leituras de “Mas Que Nada” (em Myriam Makeba Live in Paris, de 1977) e “Xica da Silva” (em Country Girl, de 1978). Essa circulação mostra que Makeba não só foi ouvida no Brasil, como também levou a música brasileira para fora e a incluiu em seu repertório artístico e antirracista.

Omara Portuondo (1930-)

Maria Bethania e Omara Portuondo, capa do disco da dupla

Omara Portuondo, por sua vez, tornou-se uma espécie de rosto feminino da redescoberta mundial da música cubana a partir do fenômeno Buena Vista Social Club, no fim dos anos 1990. Desde o fim dos anos 1940, formou-se no ambiente do “filin” – adaptação cubana do “feeling” norte-americano, marcada por uma maneira mais jazzística de cantar o bolero – e, nos anos 1950, integrou o Cuarteto d’Aida, conjunto vocal que ajudou a consolidar esse movimento na música cubana. A aproximação com o Brasil – em especial, com a Bahia -, cuja música ouvia desde a juventude, ficou mais clara em Flor de Amor (2004), disco coproduzido pelo brasileiro Alê Siqueira, Omara gravou “Casa Calor”, composição de Carlinhos Brown e Jr. Costa, cantada em português, mas ganhou forma ainda mais explícita em 2008, quando Omara lançou com Maria Bethânia o álbum Omara Portuondo e Maria Bethânia, pela Biscoito Fino, projeto construído a partir de repertórios cubanos e brasileiros. A parceria virou show e DVD, com direção musical de Jaime Além e Swami Jr e também foi explicitada no livro Omara & Bethânia: Cuba & Bahia. Mais tarde, Omara dividiu o palco com a matogrossense Vanessa da Mata, com apresentações em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre na turnê “O Último Beijo”, em 2018.

Chabuca Granda (1920-1983)

Chabuca Granda

Deve-se destacar também Chabuca Granda, nascida María Isabel Granda y Larco, que foi uma das grandes responsáveis pela renovação da música criolla de seu país, especialmente a valsa peruana, transformando Lima, suas ruas, seus personagens e suas memórias em matéria-prima para suas canções. O Brasil entrou nessa história em 1966, no I Festival Internacional da Canção Popular, realizado no Rio de Janeiro. O Peru foi representado por “María Sueños”, composição de Chabuca interpretada por Betty Missiego, que terminou em quarto lugar. No ano seguinte, Chabuca voltou a aparecer no circuito do FIC, agora como integrante do júri internacional da segunda edição do festival, também realizado em solo brasileiro.

Depois, esse elo se consolidou sobretudo por meio de Caetano Veloso, que gravou “La flor de la canela” – retrato de Lima por meio de Victoria Angulo, lavadeira cuja beleza, elegância e presença na cultura popular da cidade impressionaram Chabuca – em Qualquer Coisa, lançado em 1975, colocando a valsa criolla peruana dentro de um disco brasileiro que também contava com faixas dos Beatles, de Chico Buarque e de Jorge Ben. Quase duas décadas depois, Veloso voltaria a Chabuca com mais centralidade ao lançar Fina Estampa – dedicada à elegância do pai da compositora, retratado como um cavalheiro que atravessa com distinção as ruas da capital peruana -, álbum dedicado a clássicos hispano-americanos e batizado justamente com uma composição da peruana. Além disso, em 1995, o cantor baiano foi aos palcos com a turnê Fina Estampa ao Vivo, gravado no Metropolitan, no Rio de Janeiro.

Ainda há muitas outras vozes…

Essas pontes, contudo, não se encerram nelas. Em gerações e circuitos posteriores, outras vozes também atravessaram o Brasil por caminhos próprios: Totó la Momposina (1940-2026), por meio da cumbia, do bullerengue e de uma latinidade afro-caribenha e originária que chegou ao país em palcos como o MIMO Festival e na faixa “Latinoamérica”, ao lado da brasileira Maria Rita e da peruana Susana Baca (1942-) – voz central da música afro-peruana e etnomusicóloga pesquisadora das sonoridades da diáspora, a qual a música do Brasil também está inserida. A beninense Angélique Kidjo (1960-), por sua vez, uma das grandes vozes do afropop e da afro-fusion contemporânea – combinação de rítmicas fon e iorubás de seu país, como o zinli, com o funk, o jazz, o reggae, salsa e sonoridades afro-brasileiras – além de embaixadora da Boa Vontade do UNICEF, aprofundou a ponte África-Brasil em Black Ivory Soul, disco de 2002 gravado em parte no país sul-americano contando com uma releitura de “Refavela”, de Gilberto Gil, além de faixas compostas em parceria com Carlinhos Brown e Vinícius Cantuária.

A cubana Celia Cruz (1925-2003) também aparece nesse mapa ao associar “Você Abusou”, de Antônio Carlos e Jocafi, ao circuito salsero com “Usted Abusó” – gravada junto ao grande trombonista Willie Colón. Já Fairuz (1965-) remete à presença libanesa no Brasil por um duplo caminho: de um lado, “Aatini al-Naya wa-Ghani”, uma de suas canções mais conhecidas, foi escrita pelo cantor e compositor libanês Najib Hankash durante os anos em que viveu como imigrante no Brasil; de outro, sua memorável passagem pelo país em 1961 ocorreu justamente no momento em que a bossa nova começava a se afirmar internacionalmente – décadas depois, esse diálogo reapareceria em sua própria obra, com faixas de levada próxima à do gênero brasileiro, como “Sabah Wu Massa”, composta por seu filho e produtor musical Ziad Rahbani.

Leia também

O retorno do carvão: um novo plano energético chinês para uma era de crises

Sob o peso da crise energética e da competição global por recursos, Pequim adapta…

Não existem jovens petistas: como o problema de idade no PT afeta o pleito de outubro

O PT é o partido mais bem-sucedido da história da nova república, talvez na…

Novo esquema, velhas táticas: como Alcolumbre ganha com o esquema do Master

A fraude financeira do Master começou na Bahia, muito ligada ao PT local, mas…