Em 2025, pela primeira vez na história, menos da metade (aproximadamente 47% do total) das transações comerciais e financeiras da China com o resto do mundo foram liquidadas em dólares e processadas pelos sistemas de pagamentos internacionais administrados pelos EUA. Trata-se de um dado sensível, pois representa o efetivo acirramento das disputas de poder entre a China e os EUA no campo monetário, algo que seguiremos vendo nas próximas décadas.
Nesse sentido, cabe dissecar a forma com que se estruturou, na última década, o processo de internacionalização do renminbi. Parte-se da ideia de que, na história do Sistema Monetário Internacional (SMI), as disputas monetárias internacionais se assemelham e respondem, de certa forma, às disputas de poder e à correlação de forças entre as grandes potências. Assim, entendemos que as iniciativas chinesas para a construção de comunidades de pagamentos internacionais baseadas em sua moeda configura um desafio direto a um dos pilares centrais do poder norte-americano: a posição do dólar ao topo da hierarquia monetária internacional.
De início, destacamos que a estratégia chinesa para internacionalização de sua unidade de conta deu-se sob um esquema tripartite a partir de 2018: (1) pelo desenvolvimento de contratos futuros de petróleo denominados em renminbi; (2) pela abertura gradual e controlada do acesso estrangeiro aos mercados financeiros chineses; e (3) pelo cultivo de demanda de longo prazo para a moeda chinesa a partir da Iniciativa Cinturão e Rota (B&R; Belt and Road Initiative, em inglês).
Nesta coluna, focaremos no terceiro elemento do esquema. Antes, contudo, realizaremos uma breve contextualização da quadra contemporânea do SMI. Iniciaremos nossa análise com o índice de uso de moedas internacionais do Federal Reserve (FED), banco central dos EUA, construído a partir de uma média ponderada de variados indicadores do SMI.
Tabela 1: Índice de uso de moedas internacionais, por porcentagem do total
| Ano | Dólar | Euro | Libra | Iene | Renminbi |
| 2016 | 72,50 | 21,9 | 6,3 | 7,9 | 1,5 |
| 2017 | 71,1 | 22,9 | 6,2 | 8,2 | 1,5 |
| 2018 | 70,30 | 22,9 | 6,9 | 8,3 | 1,7 |
| 2019 | 70,20 | 23,4 | 6,4 | 7,2 | 1,7 |
| 2020 | 69,40 | 23,7 | 6,5 | 7,3 | 1,8 |
| 2021 | 70 | 22,8 | 6,5 | 6,8 | 1,9 |
| 2022 | 69 | 23,1 | 6,4 | 7,3 | 3 |
O índice do FED na Tabela 1 nos fornece um panorama geral do SMI, chamando à atenção a dominância quase inconteste do dólar estadunidense. Já quanto ao renminbi, observamos que, em termos quantitativos absolutos, a moeda chinesa ainda detém participação minoritária no SMI, mas, em termos quantitativos relativos, foi a que apresentou o maior crescimento no SMI na última década.
A composição do índice do FED, entretanto, esconde alguns pontos relevantes. Primeiro, deve-se mencionar que a internacionalização do renminbi vem sendo realizada pela China ao mesmo tempo em que ela mantém extensos e sofisticados mecanismos de controle dos fluxos de capitais, sobretudo os de curto prazo. Isto implica em que a conversibilidade do renminbi no SMI não seja plena, senão restrita e adminsitrada com cautela pelo Partido Comunista Chinês (PCCh).
Tabela 2: Títulos internacionais por denominação de moeda, por porcentagem do total
| Moeda | Ano (2024) |
| Renminbi | 0,72 |
| Franco suíço | 0,75 |
| Iene | 1,17 |
| Libra Esterlina | 7,73 |
| Euro | 39,39 |
| Dólar estadunidense | 46,34 |
Retiramos, da Tabela 2, um exemplo concreto desta particularidade da internacionalização do renminbi, com sua baixíssima participação na denominação de títulos internacionais, atrás mesmo do franco suíço. Vale dizer, a China busca internacionalizar sua moeda mantendo controles na conta de capitais tanto para mitigar os riscos e as vulnerabilidades intrínsecos aos mercados financeiros globais, quanto para preservar sua autonomia macroeconômica e soberania monetária.
Tabela 3: Porcentagem de participação nos pagamentos internacionais, por moeda
| Ano | Dólar | Euro | Libra | Yen | Renminbi | Outras |
| 2020 | 40,4 | 34,3 | 6,8 | 3,6 | 1,8 | 13,1 |
| 2021 | 39,3 | 37,5 | 6,2 | 3,0 | 2,2 | 11,9 |
| 2022 | 41,2 | 35,7 | 6,5 | 2,8 | 2,3 | 11,5 |
| 2023 | 44,0 | 29,5 | 6,8 | 3,5 | 2,9 | 13,2 |
| 2024 | 47,0 | 22,8 | 7,0 | 3,7 | 4,4 | 15,2 |
A Tabela 3, retirada da última edição das notas do FED sobre a participação internacional do dólar, configura uma das mais relevantes evidências do sucesso da estratégia chinesa para a internacionalização do renminbi. Pela primeira vez na história, a moeda chinesa superou a moeda japonesa, o yen, em participação nos pagamentos internacionais.
Esta tendência é, com certeza, reflexo (dentre outros fatores) da crescente importância e magnitude da B&R. Lançada em 2013 pelo presidente chinês, Xi Jinping, a B&R já superou em muito a marca inicialmente prevista de investimentos (de US$1 trilhão até 2020). Atualmente, contando com a presença de mais de 100 países na iniciativa, o projeto evoluiu rumo à construção de grandes projetos de infraestrutura para estruturação de corredores econômicos regionais.
Para se ter ideia do tamanho dos investimentos, o estoque total de investimentos diretos no exterior da China, era de US$1,357 trilhão em 2016 e, já em 2022, alcançava o patamar de US$2,955 trilhões. Estes exemplos servem para ilustrar tanto o papel crucial da B&R como canalizador da liquidez na economia chinesa, quanto seu papel central na estratégia chinesa de internacionalização do renminbi.
Segundo o Relatório de Internacionalização do Renminbi de 2018, fornecido pelo Banco Central chinês, as operações de liquidação transfronteiriça denominadas em renminbi com países da B&R totalizaram RMB1,36 trilhão em 2017, configurando 14,7% de todas as operações do tipo no período. Além disso, neste mesmo ano, consolidaram-se acordos bilaterais de swap cambial em moedas locais com os bancos centrais de mais de vinte países-membros da B&R.
Segundo o Relatório de Internacionalização do Renminbi de 2023, no ano de 2022, as operações de liquidação transfronteiriças denominadas em renminbi entre a China e países-membros da B&R totalizaram RMB 7,1 trilhões, representando 16,9% de todas as operações do tipo no período (PBOC, 2023, p.8). Vale dizer, em apenas cinco anos, o valor total das operações de liquidação transfronteiriça em renminbi entre a China e os países-membros da B&R aumentou cerca de 400%.
Esta concepção estratégica da B&R para a internacionalização do renminbi é extremamente relevante, particularmente por incentivar a realização dos acordos de swaps cambiais entre a China e as autoridades monetárias dos países-membros. Em contexto, até o final de 2025, o Banco Popular da China já firmou 32 Acordos Bilaterais de Swap Cambial, apresentando um expressivo saldo de RMB94,2 bilhões já sacados por bancos centrais estrangeiros.
- O índice de uso de moedas internacionais do FED é baseado na média ponderada da participação das principais moedas: nas reservas cambiais divulgadas (25%); no volume de transações cambiais (25%); nas emissões de dívida em moeda estrangeira (25%); nos empréstimos internacionais (12,5%); e nos depósitos internacionais (12,5%). ↩︎
