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O fantasma sul-americano: quando o centro não serve mais

Uma tendência ideológica da direita no continente americano mostrou que começou a ganhar tração com as eleições colombianas. Oriunda dos EUA, uma nova direita está consolidando capital político nos bastidores da política local. Em paralelo, Flávio Bolsonaro fica alheio a isso tentando usar as mesmas estratégias do pai para vencer…

Foto ilustrativa · Acrópole

A Colômbia mostrou que radicalismo compensa, e Flávio fica alheio a isso

A vitória de Milei, na Argentina, soltou um fantasma que assombra a América do Sul desde então. O surgimento de uma pós-direita, uma nova corrente ideológica, apesar de mal organizada, tem tensionado o jogo político em virtualmente todos os países da região. Além disso, dinâmicas como a predação da campanha de Valencia por Espriella na Colômbia por sua tentativa de ida ao centro demonstra, sobretudo, um cansaço com as alternativas tradicionais de poder e dão espaço para essas ideias chegarem. De onde essas ideias vieram? E como aparecerão no nosso pleito, em outubro?

O precedente e como essas ideias ganham forma

Anteriormente a qualquer análise, precisa-se entender a origem dessa nova forma de lidar com as relações políticas. De maneira geral, o que foi chamado de pós-direita surge com membros de empresas de tecnologia dos Estados Unidos, sobretudo o empresário Peter Thiel e Alex Karp que são em última instância representados pelo vice-presidente do país, JD Vance. Com sua filiação ao Partido Republicano, a direita vale-silícia encontra espaço para crescer entre empresários, aristocratas da tecnologia e enormemente entre jovens. Em última, suas ideias são debatidas, consolidadas e propagadas na revista Palladium.


Suas ideias de confiança na tecnologia e automação do Estado, cortes agressivos na máquina pública, ceticismo quanto à ascensão chinesa e revisionismo da democracia fizeram seu espaço, embora adaptadas, em solo latino e crescem gradativamente. Na amostra mais recente, percebemos isso somando-se a uma dinâmica local na Colômbia.


A disputa eleitoral entre Cepeda, Valencia e Espriella na Colômbia demonstrou uma fadiga com a ideia do centrismo iluminado e a procura por alternativas mais firmes no enfrentamento às dificuldades estruturais dos países abaixo da linha do equador. Em uma tentativa de erguer uma frente ampla de centro democrático para lidar com a candidatura de Cepeda, da esquerda institucional do país, Valencia experienciou um dos maiores fracassos político-eleitorais da história. Na tentativa de coligação com Fajardo, candidato de centro independente, demonstrou incapacidade política e falta com firmeza ideológica. Sua queda coincidiu com um aumento expressivo das intenções de voto de Espriella, candidato da direita mais radical e inspiração vale-silícia, demonstrando que a falta de respostas e ideias mais firmes são vistas com ojeriza pelos eleitores.
Mas, como isso afeta a direita nacional?

O alinhamento à fórmula velha

Recém saído de um conflito com Zema, governador de Minas Gerais, Flávio demonstrou ter capacidade disciplinaria sobre sua base eleitoral e militância. Não apenas desmontou o principal candidato da ala infiel à família dentro de seu campo ideológico, mas mobilizou suas bases para inviabilizar as tentativas de Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e voltou a concentrar o capital político frágil que seu pai construiu. Além disso, sua visita à Casa Branca e subsequente declaração do CV e PCC como organizações terroristas por parte dos EUA deram uma legitimidade de alívio e momentânea à sua campanha, que defende o colocar como alinhado ao ocidente e valores cristãos-conservadores.


Além dessa tentativa de aproximação ideológica de ambos, a movimentação por parte de Flávio joga sob a mesma um desastre iminente. A ala do espectro da direita que os Bolsonaro evocam procura, principalmente, alinhamento com o espectro MAGA dos republicanos, e não o contrário. Às vezes, o alinhamento é apenas automático: ambos baseiam sua maneira de fazer política em um capital populista e de construção de rapport através do carisma com o eleitor. Isso, por si só, não fragiliza a posição que a família toma dentro do espectro da direita.
Mas é pelo que eles não têm, a falta de poder institucional efetivo, que essa aproximação é fatal. Não existem juízes que defendem uma interpretação bolsonarista da constituição. Não existem promotores que passam a agenda bolsonarista para frente. Não existem jornalistas bolsonaristas em grande veículos de imprensa, interpretando as urgências sob uma ótica conservadora. E o pior: não existe um partido bolsonarista puro-sangue.

Manobras de flanqueamento político

E é aqui que mora o perigo para Flávio: ao apostar em um molde de política que, pelo fantasma de Milei e pelo que vemos na Colômbia, abre-se margem para vermos a primeira real contestação à hegemonia da família desde 2018. Em outras palavras, o cheiro de sangue que o crescimento de Nikolas Ferreira jogou no bolsonarismo agora lembra as trompetas de preparação para a guerra. Ao apostar na política feita pelo pai, Flávio se aliena de uma tendência ideológica e eleitoral da direita americana (no sentido dos continentes), abrindo os flancos de seu capital político frágil e facilitando uma renovação de lideranças.
Notavelmente, os maiores interessados pela queda da hegemonia bolsonarista são justamente os dois que mais são perseguidos por ela, em tentativas de disciplinarização da base. Os bolsonaristas não leais à família (representados sobretudo pelo partido NOVO) e o recém-criado partido Missão parecem ser os principais atores na disputa pelo pilar que há de cair.

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