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O Dragão e suas Armas: a Substituição de Importações na China

A China empreendeu um significativo projeto de modernização militar nos últimos 50 anos. Nas últimas duas décadas, entretanto, este projeto assumiu a forma direta de um processo de substituição de importações no setor de armamentos.

Foto ilustrativa · Acrópole

No dia 26 de maio de 2026, a China e o Paquistão assinaram Declaração Conjunta onde reafirmaram seus compromissos estratégicos e anunciaram a expansão de seu corredor econômico conjunto. A ênfase na esfera econômica pelos analistas, entretanto, deixa de lado um elemento fundamental da relação entre os dois países: o comércio de armas. 

O Paquistão é o maior importador de armas chinesas, representando cerca de 61% de todas as exportações de armamentos chinesas em 2025 e tendo quase 80% de suas importações de armamentos provenientes do gigante asiático. Acontece que, se levarmos em consideração o período mais extenso das últimas duas décadas, este tipo de relação não foi a regra: a China já foi a maior importadora mundial de armas. Dissecamos, em seguida, a trajetória de modernização militar que possibilitou à China reverter este quadro, transformando-a em um caso de sucesso de substituição de importações no setor de armamentos.

A China foi a maior importadora mundial de armas durante a maior parte dos anos 2000, mas foi ultrapassada pela Índia em 2010 e caiu para quarto lugar em 2011, atrás da Índia, da Coreia do Sul e do Paquistão. Por seu turno, as exportações de armamentos chineses aumentaram 162% entre os períodos 2003-2007 e 2008-2012, elevando a participação da China no volume de exportações mundiais de armas de 2% para 5%, transformando o país em um dos maiores exportadores globais de armas ainda na primeira metade da década passada.

Esta posição no mercado mundial de armas era condizente com as diretrizes estratégicas do setor militar chinês do final dos anos 1990 e início dos anos 2000. O princípio da modernização militar chinesa estruturava-se sobre a lógica da mecanização, buscando aproveitar e incorporar equipamentos e maquinários avançados dos países centrais para equiparar-se em matéria de tecnologia militar.

Em 2006, a China estava na décima posição dos maiores exportadores globais, ao mesmo tempo em que era a maior importadora mundial de armas. A partir deste mesmo ano, entretanto, a China iniciou um longo projeto de nacionalização (autossuficiência) das cadeias produtivas civis e militares que acumulam o valor agregado e o progresso tecnológico. O Décimo Primeiro Plano Quinquenal (2006-2010) configura um marco fundamental desse esforço chinês para alcançar a fronteira tecnológica nos setores de ponta. No mesmo ano, o Plano de Médio e Longo Prazo de Desenvolvimento da Tecnologia e Ciência Nacional (2006-2020) sugeria que a pesquisa militar assumisse um papel ancilar e complementar à pesquisa civil no esforço para promover a inovação endógena.

Nesta linha, os programas científicos militares representaram parte considerável do gasto público da China em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O volume exato de recursos alocados para ­os militares é desconhecido, mas estima-se que tenha representado entre 15% e 28% dos gastos em P&D do governo central no período. Quanto aos gastos militares em geral, estes cresceram a uma taxa anual média de 8,5% entre 1991 e 2001, período em que os gastos militares americanos e mundiais caíram. Já entre 2001 e 2012, as despesas militares chinesas cresceram a uma taxa média anual de quase 12%, mais que o dobro das taxas de crescimento do gasto militar americano e mundial no mesmo período. 

Tabela 1: Top 5 países com maiores gastos militares em 2025

PosiçãoPaísParticipação no Gasto Militar Global (em %)Variação do Gasto (entre 2016 e 2025)
Estados Unidos33%+11%
China12%+62%
Rússia6,6%+96%
Alemanha3,9%+118%
Índia3,2%+39%

Fonte: SIPRI, 2026a, p.2

A Tabela 1 nos permite visualizar que esta tendência manteve-se presente na última década, com a variação de gasto entre 2016 e 2025 apresentando um aumento de 62%, um número expressivo se levarmos em consideração que, além de ser maior que a variação dos EUA e da Índia no período, a Alemanha e a Rússia só tiveram a variação considerável por causa da Guerra da Ucrânia (2022-). 

Aproveitando do recorte histórico, deve-se mencionar que 2016 é o ano em que a Fusão Civil-Militar é alçada ao status de estratégia nacional, compreendendo outro marco fundamental na modernização e na construção da autossuficiência chinesa no setor militar. Em paralelo, a doutrina militar indicou sinais de mudança em 2015. No Defense White Paper deste ano, as diretrizes estratégicas marcaram o fim da fase de mecanização do passado e indicaram a informatização (uso de redes integradas, sistemas de informação e de análise de dados) e a inteligentização (uso de novas tecnologias incipientes, como a IA) como objetivos a serem seguidos.

Apontando cada vez mais para a incorporação do progresso tecnológico e a nacionalização de cadeias de valor das tecnologias de uso-dual civil-militar, a China conseguiu reverter sua posição importadora, tornando-se um dos maiores exportadores de armas do mundo.

Tabela 2: Top 5 maiores exportadores de armas em 2025, por país

PosiçãoPaísParticipação nas Exportações Globais de Armas entre 2021 e 2025 (em %)
Estados Unidos42%
França9,8%
Rússia6,8%
Alemanha5,7%
China5,6%

Fonte: SIPRI, 2026b, p.2

A Tabela 2 ilustra a situação atual da substituição de importações chinesa no setor de armamentos, estando na quinta posição global de exportações e, ao mesmo tempo, na vigésima primeira posição global de importações de armas. 

No ranking das maiores empresas exportadoras de armamentos em 2023, a China tinha nove empresas listadas no Top 100, com três delas estando no Top 10. Em sua maioria, grandes conglomerados empresariais estatais, as firmas chinesas tiveram uma receita de US$100 bilhões, representando 16% da receita total das empresas listadas no Top 100 global

Por vezes um lado oculto da ascensão chinesa, podemos afirmar que o processo de substituição de importações chinês no setor de armamentos foi de extremo sucesso nas últimas duas décadas, configurando uma reversão significativa das vulnerabilidades do passado e colocando a China em posição central para o futuro das disputas militares globais.

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