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As múltiplas facetas de Heitor dos Prazeres: um pensador do Brasil

Heitor dos Prazeres foi um artista completo, levando um Brasil negro, popular, virtuoso e trabalhador à música, à pintura, ao carnaval e à moda – por meio de seu olhar apurado para a vida do Centro do Rio de Janeiro ao longo do século XX – alcançando, inclusive, o exterior.…

Foto ilustrativa · Acrópole

“Eu sou o ovo e o povo é a chocadeira”

Assim se define Heitor dos Prazeres (1898-1966) no documentário com seu nome, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, em 1965. Foi um artista de muitas frentes: como compositor, artista plástico, cenógrafo, figurinista e estilista, por meio dos morros, das favelas, dos trabalhadores, da população negra, do samba e da vida popular carioca, transformou essas experiências concretas em formas de expressão que, transcendendo a urbanidade do Rio, alcançaram ressonância mais ampla – retratando, por meio dessas linguagens diferentes, sua forma de pensar o país e o ser humano.

Nascido em 1898, no Rio de Janeiro, Heitor veio de um dos territórios mais decisivos da formação cultural do Rio negro do pós-abolição: o bairro da Praça Onze. Ele era o coração da ‘Pequena África’ – termo alcunhado pelo próprio artista para designar esse universo histórico de sociabilidade afro-carioca, que incluía também bairros como Saúde, Gamboa e Santo Cristo – e um ponto de encontro de ranchos, terreiros, festas, tias baianas e sambistas que ajudaram a moldar a vida musical, cultural e religiosa da cidade. 

Filho de Eduardo Alexandre dos Prazeres, marceneiro e clarinetista da Guarda Nacional, e de Celestina Gonçalves Martins, costureira, ele cresceu em um ambiente em que a música, a produção manual e a sociabilidade popular pulsavam. Ainda menino, dividido entre as ocupações de jornaleiro, lustrador de móveis, ajudante de marceneiro e engraxate, frequentava a casa de Tia Ciata – uma das figuras centrais da cultura afro-brasileira no início do século XX, reconhecida como mãe de santo, quituteira e anfitriã -, espaço fundamental para as reuniões de sambistas da época (como Donga, João da Baiana e Pixinguinha), onde a música e a religiosidade afro-brasileira se entrelaçavam explicitamente. 

Inspirado pelo clima da mais destacada casa da Praça XI na Primeira República e por seu tio Hilário Jovino Ferreira, o “Lalau de Ouro”, de quem recebeu o primeiro cavaquinho e impulso inicial para compor, Heitor tomou cedo a música como caminho; aos doze anos, já era conhecido como Mano Heitor do Cavaquinho. Criou e cantou canções que fixaram de vez seu nome na história do gênero: em “Não Adianta Chorar” – primeiro samba vencedor de concurso, em 1929, na casa do pai de santo Zé Espinguela, defendendo o Conjunto Oswaldo Cruz, futura Portela – já se desenha um eu lírico marcado pelo desencanto amoroso e pela dureza afetiva que dele emana;  em “Pierrô Apaixonado”, parceria com Noel Rosa, Heitor narra um desencontro amoroso em uma chave carnavalesca e humorada atrelada a um cenário de botequim e bebedeira, em um Rio no qual a festa e a dor caminhavam juntas; já em “Tristeza”, composta com Herivelto Martins, aparece um eu lírico perseguido pela melancolia, que “fica sorrindo pra não chorar” e se define, assim, como “um verdadeiro brasileiro”, como se a dor íntima também dissesse algo sobre a experiência coletiva. Tomadas em conjunto, essas e tantas outras letras de Heitor dos Prazeres mostram um compositor atento ao amor e à tristeza; à ironia e à felicidade do carnaval; à sociabilidade popular e a busca por alcançar múltiplas subjetividades.

Participou da fundação da Portela (1923) – sendo o responsável por escolher suas cores azul e branco -, da Mangueira (1928), da Deixa Falar (1928), da Unidos da Tijuca (1928) e da Vizinha Faladeira (1932), agremiações que se tornaram centrais na história do samba e do carnaval. Em adição a isso, teve papel importante, sobretudo a partir da experiência do Estácio, no planejamento e na consolidação do modelo que desembocaria no desfile moderno das escolas de samba: um cortejo mais ritmado, coeso e organizado, em que a música e a visualidade atrelada à uma pujante ocupação da rua passavam a formar um conjunto apresentando o samba não só como canção, mas como uma forma coletiva e ornamentada de apresentação e espetáculo. Ainda junto a Cartola e Paulo da Portela, outros figurões das então nascentes escolas de samba, integrou em 1941 o breve ‘Conjunto Carioca’ – formação que reunia nomes centrais na elaboração do samba urbano do Rio e do próprio desenho inicial dos desfiles – que fez turnê em São Paulo.

Mas foi só por volta dos quarenta anos que Heitor começou a expor suas pinturas, que não abandonavam, todavia, o universo que já havia musicado. Em suas telas reaparecem as rodas de samba, as brincadeiras, festas, casamentos, trabalhadores, músicos e passistas. O traço frequentemente associado ao ‘naïf’ – com suas cores vivas, a frontalidade das figuras e a pulsação coreográfica das composições – fizeram com que sua obra fosse muitas vezes lida como espontânea ou “ingênua”, mas esse enquadramento não passa de mera simplificação. Sua pintura era, também, samba: com cadência e movimento e a transmissão em tela das alegrias e dramas do povo. É preciso dizer mais: a insistência em classificá-lo como “primitivo”, “ingênuo” ou apenas “popular” também revela o quanto o modernismo brasileiro teve dificuldade de reconhecer, em um artista negro e oriundo da classe trabalhadora, a mesma complexidade formal e a mesma potência de inventiva que consagrou em outros nomes – em grande medida brancos e que tiveram acesso à uma educação formal prestigiada, muitas vezes no exterior.

Apesar disso, as pinturas de Heitor dos Prazeres foram reconhecidas ainda com o artista em vida, inclusive fora do Brasil. Em 1943, sua pintura ‘Festa de São João’, exibida na Royal Academy of Arts, em Londres, foi vendida para a então princesa Elizabeth. Sua obra, ainda nos anos 1940 chegaria ao MoMA – o Museu de Arte Moderna de Nova York, uma das instituições mais influentes da arte moderna no século XX. Em 1951, Heitor participou da I Bienal de São Paulo, onde recebeu prêmio na categoria de pintura nacional por ‘Moenda’; em 1952, esteve na Bienal de Veneza (Itália); em 1961, realizou exposição individual no MAM do Rio; e, em 1966, já no fim da vida, integrou a delegação brasileira no I Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar (Senegal). Ao longo desse percurso, seus trabalhos também circularam por mostras e coleções em países como Inglaterra, França, Argentina, Alemanha e Rússia. Paralelamente, Heitor mantinha olhar crítico sobre a mercantilização da própria obra. Mesmo com reconhecimento no Brasil e no exterior, via com desconforto a pressão do mercado e a demanda por uma repetição mecânica de seus traços. Sua pintura era, para ele, também um resgate à sua memória e às da ‘Pequena África’, além de um refúgio para os seus sentimentos – e não apenas um bem material. 

“Moenda”(1951), de Heitor dos Prazeres

Sua multiplicidade artística também alcançou os palcos e figurinos. Heitor em 1954 atuou como cenógrafo do Balé do IV Centenário de São Paulo, levando para a cena sua sensibilidade visual já desenvolvida em outros planos artísticos. Ao mesmo tempo, também criava em seu ateliê na General Pedra os trajes usados por seus grupos musicais, além de fantasias de carnaval e roupas para festas que organizava. Esse trabalho lhe renderia reconhecimento também nesse campo: em 1962, foi incluído entre os dez homens mais elegantes do Rio de Janeiro em lista organizada pelos colunistas sociais Ibrahim Sued e Jacinto de Thormes para a revista O Cruzeiro, reconhecimento ligado à originalidade das próprias vestimentas – costuradas e desenhadas pelo próprio Heitor dos Prazeres. Nos anos 1960, sua inventividade ainda se estenderia à criação de estampas para a Rhodia, então uma das gigantes do setor têxtil no Brasil, o que ajuda a dimensionar a escala de sua inserção também no universo da moda.

Heitor dos Prazeres assim, foi um dos artistas mais completos da cultura brasileira: mestre na música, nas artes visuais, na cenografia, na criação de figurinos e na indumentária, colocou no devido pedestal um Brasil negro, popular, trabalhador, festivo, mas também cru – e, com isso, ajudou a moldar o samba, o carnaval e uma imagem de país que até hoje se vê, sendo ao mesmo tempo universal. Contudo, seu nome hoje circula menos do que a própria estética que ajudou a desenvolver. Por isso, movimentos recentes de recuperação de sua memória, como a grande retrospectiva do CCBB Rio em 2023 e o desfile da escola de samba carioca Vila Isabel em 2026, em sua homenagem, podem ser lidas como tentativas, no tempo atual, de corrigir um apagamento significativo: reação a um Brasil que, embora esteja avançando nesse aspecto, ainda demora demais a reconhecer, em seus artistas negros, alguns de seus maiores formuladores intelectuais.

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