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Os batuques e as mesas do Café Nice

O Café Nice, fundado em 18 de agosto de 1928, foi um dos espaços mais simbólicos da música popular brasileira na primeira metade do século XX. Situado na Avenida Rio Branco nº 174, no centro da então capital federal, reunia a boemia carioca, o mercado fonográfico e a nascente rádio…

Foto ilustrativa · Acrópole

O Café Nice, fundado em 18 de agosto de 1928, foi um dos espaços mais simbólicos da música popular brasileira na primeira metade do século XX. Situado na Avenida Rio Branco nº 174, no centro da então capital federal, reunia a boemia carioca, o mercado fonográfico e a nascente rádio carioca – que chegava a ter no café-bar palco de entrevistas com frequentadores – num só lugar. Nomeado em homenagem à capital da Côte d´Azur por ser inspirado no imaginário dos cafés franceses da Belle Époque, nasceu com ares cosmopolitas, mas se abrasileirou profundamente, até virar aquilo que muitos passaram a chamar de “bolsa de valores do samba”: um lugar em que compositores, intérpretes e compradores de música se encontravam para negociar canções, parcerias e oportunidades na nascente indústria musical brasileira – ao passo que era um palco das tensões sociais e raciais que ainda persistem.


Nele, o samba se consolidou enquanto uma mercadoria cultural urbana, em sintonia com a Era Vargas, quando o gênero foi crescentemente alçado à condição de símbolo da identidade nacional brasileira. Nas suas mesas circularam nomes como Dorival Caymmi, Marlene Pixinguinha, Orlando Silva, Cartola, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Mário Lago e Carmen Miranda, e surgiram canções eternizadas como “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Com que roupa?” (Noel Rosa), “Meu Mundo é Hoje” (Wilson Batista/José Batista) e “Atire a Primeira Pedra” (Ataulfo Alves/Mário Lago).


Mas o Nice também concentrava tensões importantes sobre o próprio sentido do samba. Havia quem defendesse o lugar como um palco que possibilitava apresentar o gênero como afastado da imagem da “malandragem”; ao mesmo tempo, muitos compositores oriundos dos morros e das favelas faziam questão de afirmar ali justamente essas origens populares, negras e suburbanas da canção – embate esse que pode ser lembrado por meio da célebre rixa entre Noel Rosa, branco e oriundo da classe média de Vila Isabel, e Wilson Batista, negro e ligado às populações periféricas e figuras célebres da Lapa, que teve no Café Nice uma de suas arenas mais emblemáticas.


O local condensava, desse modo, ambiguidades muito brasileiras: era ao mesmo tempo um espaço de consagração artística e de disputa simbólica; ao passo que era um espaço de criação, mas também de exploração em relevante medida. De um lado, ajudou a transformar o centro do Rio em vitrine nacional do samba; de outro, expôs a precariedade de muitos compositores, que vendiam músicas por necessidade imediata, frequentemente perdendo renda e reconhecimento.


Sua influência ultrapassou o Rio: em Belo Horizonte, outro Café Nice, aberto em 1939 no centro da cidade, virou ícone do centro da cidade e da memória boêmia local; depois em Natal, o Café Nice 2, fundado no início dos anos 1960, surgiu explicitamente como homenagem ao original carioca e se tornou ponto de encontro de rodas de samba e choro no bairro do Alecrim. Isso e seu legado para o país até os dias de hoje mostram que a “matriz” carioca, que encerrou suas atividades em janeiro de 1954, virou, em meados do século XX, um modelo nacionalizado de sociabilidade musical urbana.

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