“It ‘s the economy, stupid” é um bordão político que sinaliza a importância do “voto econômico” para decidir uma eleição: se a economia vai bem, o governo é reeleito; se os indicadores vão mal, a oposição ganhará a campanha. Tal lema orientou muitas vitórias em eleições desde os anos 90; entretanto, dada a conjuntura das últimas disputas eleitorais – a nível nacional e internacional –, é necessário questionar: uma economia estável ainda é suficiente para assegurar uma vitória? Tal questionamento ressoa particularmente diante das eleições presidenciais de 2026 pois, apesar do desempenho macroeconômico acima da média do Governo Lula III, sua reeleição não está posta como certeira ou absoluta, mas como disputa incerta – visto seu empate com o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) na maioria das pesquisas.
O bordão, “it ‘s the economy, stupid” surgiu no contexto da tentativa de George H. Bush (pai) se reeleger em 1992. Seu carisma e sua vitória militar na Guerra do Golfo (1991), que o deixou com uma aprovação de 90% à época, deixou um trabalho bem difícil para seu opositor – Bill Clinton. Na tentativa de vencer Bush, um assessor de Clinton criou o lema para nortear sua campanha, pois em agosto de 1992 a desaprovação de Bush já estava em 64% – o motivo? A recessão em que o país havia mergulhado. Assim, Clinton venceu o republicano fazendo o eleitorado associar que votar em Bush era votar pela continuidade da decadência na economia americana.
Desde então, essa noção permaneceu no imaginário popular, sobretudo quando falamos em reeleições. Entretanto, houve uma clara mudança em relação a esse comportamento, tanto no Brasil quanto no exterior – a fim de exemplificar, vale observarmos dois casos em especial: i) em 2018, Haddad perdeu para Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras, apesar de prometer um retorno ao período de bonança dos primeiros governos Lula, pois não era apenas sobre economia – o antipetismo e pautas como segurança pública e anticorrupção levaram à vitória de Bolsonaro, apesar de não ter promessas econômicas relevantes para colocar o país em rota de crescimento; ii) em 2024, Kamala Harris perdeu para Donald Trump, apesar da recuperação da economia americana diante da pandemia do Covid-19 – graças às estratégias que ficaram conhecidas como bidenomics – pois Trump apostou na frustração e fadiga do povo americano. Em ambos os casos, a cultura, a moral e a percepção de “renovação” foram mais decisivos que os indicadores macroeconômicos.
Contudo, essa inflexão no comportamento eleitoral – sobre quanto o eleitor mediano se importa com o estado da economia – não parece ter sido registrada nas previsões dos agentes midiáticos, acadêmicos e políticos brasileiros. Dessa forma, os veículos de comunicação e estudiosos seguem discutindo o porquê da “percepção econômica” das pessoas levarem a votar contra o governo, apesar de bons indicadores. Assim surgiu a tese do endividamento das famílias como razão para a insatisfação popular – e apesar de reconhecer a devida relevância do problema, não se pode dar importância exclusiva a esta questão, pois certamente haveria uma mudança de opinião do eleitorado com o anúncio do Desenrola 2.0. Afinal, diante de uma relativa estagnação enfrentada por Lula nas pesquisas eleitorais, o governo segue desenhando novas políticas econômicas para atingir os eleitores – como o Novo Desenrola Brasil, que pretende aliviar o problema dos endividados através da renegociação e de descontos de até 90% do valor original.
O Governo Lula III entregou bons indicadores macroeconômicos: i) crescimento do PIB acima das expectativas de mercado; ii) inflação contida dentro da meta, podendo chegar a inflação acumulada em um mandato mais baixa em mais de 25 anos – de 19,11% segundo as projeções do FGV Ibre; iii) menor desemprego “da série histórica” (6,4%), ou seja desde 2012. Ainda, executou uma das maiores reformas da nova república ao garantir a isenção do imposto de renda para aqueles que ganham até R$5000,00 por mês – que é cerca de 84% da população ocupada. Não obstante, Lula ainda zerou os impostos sobre a cesta básica em março do ano passado, medida que entrará em vigor em 2027, bem como a “taxa das blusinhas”. Mesmo assim, vinha enfrentando dificuldades nas pesquisas para sua reeleição – ora perdendo para Flávio Bolsonaro, ora empatado, o que evidentemente não pode se explicar exclusivamente sob a ótica da economia.
Entretanto, houve um ponto de inflexão na atual conjuntura que ajuda a corroborar nossa tese. Nesta terça-feira, dia 19/05, Flávio Bolsonaro – que até então estava empatado com Lula – caiu 6 pontos na pesquisa divulgada pela AtlasIntel/Bloomberg. O motivo? Novamente, a pauta “moral” da corrupção – ou percepção de corrupção –, pois essa pesquisa foi divulgada uma semana após o vazamento dos áudios de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Um único vazamento de um possível escândalo foi capaz de fazer muito mais por Lula em sua missão de reeleição do que sua equipe econômica pelos últimos 4 anos. Assim, fica cada vez mais claro que “it ‘s not just the economy, stupid”.
