Um evento previsível e esperado, mas extremamente curioso, discorreu-se ao longo da última semana. Conforme amplamente noticiado, foram vazados áudios que o atual Senador Flávio Bolsonaro enviou a Daniel Vorcaro, banqueiro responsável pelo escândalo de corrupção do Banco Master (o maior de nossa história!), solicitando repasses financeiros totalizando 134 milhões de reais para a execução de um filme em homenagem a Jair Bolsonaro, seu pai. Em sequência, esse fenômeno levou a uma reação do atual governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a publicar um vídeo denunciando Flávio. O que foi curioso é que só o último verdadeiramente se prejudicou.
Já se sabe a muito tempo da balcanização do bolsonarismo como um todo em três grandes grupos: os leais à família, os que almejam se tornar independentes e os olavistas. Esses últimos se esgotaram em 2021, onde sua filiação em massa no PDT falhou em providenciar um meio legítimo de poder aos mesmos. Assim sendo, o jogo interno à bolha é uma dialética entre aqueles que acenam ao capitão mas trabalham para suplantá-lo como liderança política e eleitoral e aqueles focados em concentrar a narrativa em torno de um líder, apenas. Um movimento centrífugo esperado de quem depende do carisma e não se consolida na política institucional.
Portanto, uma das grandes discussões nesse período de pré-campanha era a de “quem seria o candidato bolsonarista?”, vide que o chefe está preso. Vários nomes tentaram se estabelecer, como Tarcísio, Caiado, Zema e eventualmente Flávio. Em graus diferentes, todas as lideranças que não ostentam o sobrenome Bolsonaro possuem ligações íntimas 1) com a Faria Lima e 2) com a ala sedenta por um novo líder.
O mercado financeiro quer um nome previsível, como sempre: usam isso para poderem fazer preço e ganhar com a especulação de curto prazo. Com uma administração estável, menos variáveis aparecem nos screenings, e assim fica mais fácil lucrar. Por isso, e preferindo políticas fiscais de austeridade, optaram em larga escala por nomes dessa direita semi-independente. Colocaram seu capital para trabalhar nisso.
Em paralelo, precisa-se entender a dinâmica política para ter uma visão holística do cenário. Pela inabilidade crônica que Bolsonaro mostrou em marcar sua posição no estamento burocrático nacional, de “infiltrar-se na máquina”, seu capital político se reduziu ao seu carisma. São discursos e fotos com vereadores que fazem a máquina rodar e, naturalmente, isso é pouco estável uma vez que abre espaço a outras figuras rapidamente assumirem a posição do líder carismático. Hoje, uma ala composta principalmente por Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro representam esse grupo lá dentro.
Tendo isso em mente, podemos entender melhor que a candidatura de Flávio não é ideal para uma seção cada vez mais poderosa (nos moldes bolsonaristas) dentro dessa ideologia. Ele representa uma tentativa de concentração de poder por parte da família, buscando manter sua herança coesa e unificada para não pulverizar seu capital em várias figuras menores. Por isso, sabemos que existem negociações de bolsonaristas anti-Flávio, que apoiaram a pré-candidatura, junto à Faria Lima, de Tarcísio e, agora, Zema.
Aqui que o fato curioso entra. O governador de Minas, vendo as provas nítidas de envolvimento com o escândalo do Master por Flávio, critica o outro pré-candidato em uma tentativa de tragar o público bolsonarista todo a si. Isso também tem um caráter pessoal, especialmente porque em uma tentativa de desarticular sua campanha e garantir lealdade a Jair o Senador Rogério Marinho teria tido uma conversa em tom grosseiro com o governador, falando que “se nem em seu Estado você serve para ser vice, quem dirá na presidência” (uma vez que o cotam para ser vice de Flávio). Esse fato, que aconteceu em um barril de pólvora verde e amarelo, inaugurou uma pequena guerra civil no bolsonarismo.
Quando a poeira abaixou, percebeu-se nos trackings eleitorais que Zema perdeu grande parte de sua incipiente base eleitoral, e por óbvio: ele se vendia um bolsonarista mais bolsonarista que um Bolsonaro, e quando ataca um dos pilares essenciais à manutenção dessa ideologia (o carisma e legitimidade da família), naturalmente seu eleitor o abandona. Flávio, por sua vez, mostrou-se estável mas iniciou um processo lento e gradual de derretimento, causado principalmente pelo desgaste de sua pré-campanha e por não ter apoio midiático suficiente.
Isso mostrou, principalmente, a lealdade do eleitor bolsonarista e como a legitimidade da família se sustenta. Um alinhamento de interesses entre a Faria Lima e príncipes rebeldes do bolsonarismo por uma alternativa à direita causou um conflito entre Romeu zema e Flávio Bolsonaro, e a queda do primeiro nas pesquisas após o evento mostra não apenas um eleitorado fiel mas uma lógica de respeito ao carisma e legitimidade daquele que tomou a facada.
