Adesumanização de povos inteiros opera como um truque de prestidigitação geopolítico: permite que bloqueios, sanções e ações militares surjam no noticiário como meros “instrumentos de pressão a países”, e não como o que de fato são — mecanismos que recaem, com peso brutal, sobre populações inteiras. Nesse teatro de abstrações, os gestos recentes de Chico Buarque em Cuba e de Caco Barcellos no Irã habitam o mesmo campo semântico, ainda que separados por milhares de quilômetros: o da recusa em aceitar que povos sejam reduzidos a peças num tabuleiro de xadrez.
Havana, 1992 e 2026
A ida de Chico a Cuba em 2026 não é exatamente uma estreia. Rememora, na verdade, sua última viagem ao país, em 1992, quando participou de uma brigada brasileira de solidariedade para apoiar os cubanos em meio ao grave desabastecimento que marcou o início do “período especial” — aquele eufemismo insular para o colapso da URSS, aliado ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos desde 7 de fevereiro de 1962. Agora, mais de três décadas depois, o reencontro com o célebre cantor Silvio Rodríguez, a passagem pela Casa de las Américas — histórica instituição voltada à promoção da produção intelectual e artística da América Latina e do Caribe — e a entrega de medicamentos ao Ministério da Saúde cubano atualizam esse vínculo sob lógica semelhante: a de reafirmar solidariedade a uma ilha que segue pressionada, como quem insiste em não deixar que a geografia se transforme em abstração.
Das ruas de Teerã
Em paralelo, a trajetória de Caco Barcellos nunca se limitou à cobertura de grandes eventos; foi construída justamente pela atenção sistemática aos que costumam ser invisibilizados. Os livros “Rota 66” e “Abusado”, além do programa “Profissão Repórter”, comprovam isso ao iluminar vítimas da violência policial, moradores de periferia e personagens empurrados para fora do campo da empatia pública. Ao ir ao Irã e reportar, das ruas, os impactos da guerra contra Estados Unidos e Israel, Caco faz o que sempre marcou sua trajetória: dar rostos e humanidade aos que a lógica bélica invisibiliza. Mesmo em uma emissora de viés israelo-estadunidense, ajuda a tensionar esse enquadramento e a recolocar no centro quem costuma surgir apenas como pano de fundo — ou vilão — no debate brasileiro. Em um momento em que Trump sustentou que “dizimaria” o Irã e fala abertamente em tomar Cuba, os gestos de Chico e Caco pesam não porque resolvam por si sós a violência, mas porque se colocam na contramão da transformação de países em zonas legítimas de intervenção. Chico, em Havana, e Caco, nas ruas de Teerã, reiteram a humanidade dos povos sobre os quais a geoestratégia insiste em falar de cima.
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