Voltar ao portal /

Jones Manoel: sua suposta “incoerência ideológica” e seu realismo político

Recentemente, o fenômeno das redes sociais, Jones Manoel – conhecido por suas críticas ao governo, pelo prisma da esquerda radical – anunciou uma “filiação democrática” ao PSOL, partido reformista que é base do Governo Lula III, para se lançar como deputado federal. Em paralelo, ao passo que se aproxima da…

Foto ilustrativa · Acrópole

Recentemente, o fenômeno das redes sociais, Jones Manoel – conhecido por suas críticas ao governo, pelo prisma da esquerda radical – anunciou uma “filiação democrática” ao PSOL, partido reformista que é base do Governo Lula III, para se lançar como deputado federal. Em paralelo, ao passo que se aproxima da esquerda moderada institucionalmente, se afasta de sua anterior organização, o PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Esse processo, um tanto quanto contraditório, pode ser representativo de um fenômeno curioso: o realismo político.

Tal mudança súbita provocou críticas vindas da esquerda radical ao web-comunista, por uma suposta “incoerência ideológica”. Visto que o mesmo poderia ter feito uma filiação a um partido da esquerda radical, como: UP, PSTU, PCB, etc. para se lançar enquanto parlamentar. Apesar de quaisquer contradições ideológicas, essa filiação demonstra que Jones não entrou na eleição para perder, mas para chegar ao planalto central em 2027.

É provável que o leitor já tenha escutado o termo “voto útil” durante alguma eleição, muito utilizado na última votação para presidente da república, num contexto onde votar em qualquer candidato que não fosse Lula ou Bolsonaro era um “desperdício”, uma vez que os outros presidenciáveis não apresentavam chances reais de vencer os dois supracitados. Essa lógica também é muito aplicada às eleições dos parlamentares, visto que mesmo membros da esquerda radical optam por votar em congressistas de legendas reformistas, como PT, PSOL, PCdoB, PV, PDT, etc. por terem mais chance de serem eleitos.

Essa “maior chance de ser eleito” em partidos mais institucionais não é coincidência, ela é motivada pela própria lógica da eleição. Isso ocorre pois a chance de um candidato bater o quociente eleitoral sozinho – número de votos mínimo para ser eleito – é, em média, de 5% – ou seja, um em vinte deputados eleitos. Dessa forma, se uma legenda como o PSTU ou UP precisar de 200 mil votos em Pernambuco para eleger um parlamentar e Jones Manoel conseguir sozinho 90% dos votos, ainda haverá o risco dele não ser eleito, pois tais partidos apresentam um baixo número de votos crônico em todas as regiões.

Se um deputado do “centrão” consegue ser eleito tendo menos da metade dos votos requisitados pelo quociente graças a sua legenda, é realmente justo cobrar “coerência ideológica” de um candidato que tem sólidas chances de ser eleito, se lançado por um partido que dê a mínima estrutura para sua corrida eleitoral? Não é sobre incoerência, mas sobre realismo político – é sinal de que Jones Manoel entrou nesse jogo para ganhar, não para deixar esse assento no parlamento para alguém que faria mais do mesmo.

Persépolis · Newsletter semanal · Gratuita

O mundo explicado. Todo sábado, às 8h.

Política, economia e relações internacionais. Gratuita. Cancele quando quiser.

Leia também

Donald Trump em Pequim – um fracasso?

Entre os dias 12 e 15 de maio, Donald Trump realizou uma Visita de…

Chico e Caco contra a desumanização dos povos

Entre Havana e Teerã, o cantor e o repórter reafirmam que países não são…

Por que o governo recuou na tributação de produtos tecnológicos

Medida atingiria bens sem produção nacional e encareceria insumos industriais, gerando inflação sem proteger…