Entre os dias 12 e 15 de maio, Donald Trump realizou uma Visita de Estado à China, a primeira desde que visitou o país durante seu primeiro mandato, em novembro de 2017. Trump montou uma “comitiva especial” para a viagem, contendo os CEOs das mais importantes companhias norte-americanas, como Tesla, Nvidia, Apple, BlackRock, Boeing, Goldman Sachs, entre outras.
A Casa Branca publicou um Fact Sheet no dia 17 de maio, onde apresentaram os supostos sucessos da viagem de Trump para o povo estadunidense. Sobre os resultados da viagem, ao invés de nos centrarmos no tom das negociações, nos atentaremos à discrepância entre os “acordos históricos” que a Casa Branca afirma ter realizado e o mundo real.
Primeiro, a Casa Branca (e o Secretário de Estado, Marco Rubio) declarou a convergência entre a China e os EUA acerca da questão do Estreito de Ormuz, afirmando que ambos são contra sua militarização pelo Irã. A controvérsia óbvia neste caso é que, ao contrário do apontado pelos EUA, a posição chinesa não é convergente com a norte-americana.
A China denuncia, desde março, o caráter ostensivo e ilegal da investida anglo-israelense contra o Irã. Sobre o estreito, o embaixador chinês na ONU criticou duramente a proposta de resolução dos EUA e do Bahrein para sua reabertura em maio, reiterando que a militarização do estreito teve início com a investida anglo-israelense.
Quanto ao comércio e os investimentos entre os dois países, a Casa Branca vê com euforia os acordos estabelecidos. Neste âmbito, contudo, o fracasso dos EUA foi talvez maior ainda.
O “sinal verde” para compras chinesas de chips da Nvidia não teve contrapartida, com a Reuters noticiando que nenhuma empresa chinesa demonstrou interesse. O acordo de 200 aviões da Boeing pareceu de sucesso, mas foi muito aquém das expectativas do CEO da empresa e do mercado (que esperavam 500 encomendas), fazendo com que as ações da empresa caíssem 4% no imediato após o acordo. Por fim, especialistas apontam que a “Junta de Comércio Bilateral China-EUA”, apesar de seu tom pomposo, não parece que apresentará os efeitos esperados pelos EUA.
Quanto às matérias-primas e terras raras, estes foram os acordos mais favoráveis aos EUA, mas trouxeram à tona tanto sua própria vulnerabilidade, quanto a autossuficiência chinesa para produtos norte-americanos.
Nas matérias-primas, a Casa Branca anunciou compras chinesas de soja norte-americana no valor de US$16 bilhões por ano ao longo do próximo triênio. O alto valor, entretanto, é pequeno em relação ao montante das importações de soja brasileira pela China, por exemplo, pois, apenas em 2025, a soja brasileira representou mais de 80% de todas as importações chinesas do produto, avolumando cerca de US$53 bilhões.
Sobre as terras raras, a flexibilização da contrapartida chinesa à diplomacia comercial-tarifária dos EUA revelou mais a vulnerabilidade do que o poderio norte-americano, evidente na dependência vital no setor de defesa dos EUA, por exemplo.
Acontece que, efetivamente, o fracasso norte-americano é fruto de suas próprias iniciativas. As origens deste impasse remontam à Guerra Comercial Sino-Americana, iniciada em 2018 pelo então presidente, Donald Trump. As tarifas impostas pelos EUA aos produtos chineses importados alcançaram a marca de US$60 bilhões de dólares.
As tarifas se desdobraram em três fases: (1) a primeira etapa, por meio da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, começou em 06/07/2018, cobrindo US$34 bilhões de importações; (2) a segunda etapa entrou em vigor em 23/08/2018, cobrindo US$16 bilhões; e (3) a terceira etapa entrou em vigor em setembro de 2018, impondo tarifas de 10% sobre bens provenientes da China pelo valor de US$200 bilhões, cobrindo US$20 bilhões. Como retaliação, a China anunciou a cobrança de tarifas de 25% sobre produtos estadunidenses, pelo valor de US$16 bilhões.
Como resultado, desde o início da Guerra Comercial, a participação de importações chinesas no agregado da balança comercial norte-americana caiu de 47%, em 2018, para apenas 26%, em 2023. Esta dissociação estratégica da China em relação ao mercado norte-americano também teve efeitos relevantes no âmbito monetário-financeiro, pois o gigante asiático não se limitou a construir alternativas apenas no campo comercial.
Como exemplo, em 2025, menos da metade (aproximadamente 47% do total) das transações comerciais e financeiras da China com o resto do mundo foram realizadas em dólares e processadas pelos sistemas de pagamentos internacionais controlados pelos EUA. A China conseguiu, de fato, contornar paulatinamente o dólar e as instituições norte-americanas.
Quanto aos chips e aos semicondutores avançados, cresceu o número de empresas chinesas de alta tecnologia sancionadas pelas Entity Lists dos EUA. As Entity Lists são uma listagem administrada pelo Escritório de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio dos EUA para restringir o escopo legal de atividade de determinados indivíduos, empresas ou organizações estrangeiras no país. As Entity Lists têm o objetivo de proibir às empresas sediadas nos EUA que exportem produtos para as empresas estrangeiras nelas listadas.
Desde a inclusão da Huawei nas listagens, em setembro de 2019, o número de entidades chinesas listadas aumentou em seis vezes. Até o ano de 2025, constavam 1065 empresas chinesas nas Entity Lists, o segundo país com maior número de empresas listadas, depois da Rússia com 1083 empresas listadas. O curioso, neste caso, é a discrepância entre o número de entidades listadas por país entre os dois primeiros colocados e o terceiro, os Emirados Árabes Unidos, que detêm apenas 185 empresas listadas.
O cerco tecnológico imposto pelos EUA à China impeliu-a a construir nexos internos nas cadeias de valor dos setores de alta tecnologia, impulsionando a nacionalização dos mercados dos componentes-chave destas cadeias. É por isso que, mesmo com o “sinal verde” para chips da Nvidia, os americanos não receberam a reação desejada. Parece que, com efeito, a China conseguiu mitigar sua dependência de componentes norte-americanos.
Em suma, mais uma vez na história, os EUA ficam reféns, no presente, dos efeitos indesejados de suas próprias iniciativas do passado.
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