O PSD oficializou, na segunda-feira 30 de março de 2026, Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência da República em evento realizado em São Paulo. Logo no lançamento, o governador de Goiás anunciou que, se eleito, seu primeiro ato será conceder anistia ‘ampla, geral e irrestrita’, inclusive a Jair Bolsonaro. O anúncio foi feito às vésperas dos 62 anos do golpe militar de 1964, que instaurou a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985). A promessa revela não apenas o posicionamento de Caiado, mas um traço persistente da política nacional: quando se fala em ‘centro’ ou ‘terceira-via’, frequentemente está se falando de uma direita que deseja parecer mais palatável.
A assimetria no tratamento político
No Brasil, centro-esquerda e direita são tratadas de forma assimétrica. Nomes moderados como Fernando Haddad e o presidente Lula são frequentemente associados por desinformação ao comunismo e vinculados à China, Cuba e Venezuela. Já figuras conservadoras fortemente ligadas ao bolsonarismo — como os governadores Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG) — são vistas como menos radicais. Essa distorção na percepção pública favorece que políticos de direita se apresentem como moderados, mesmo quando suas trajetórias indicam o contrário.
A trajetória conservadora de Caiado
Ronaldo Caiado nunca foi um centrista moderado. Ao longo de sua trajetória política — seja no parlamento, seja no Palácio das Esmeraldas — esteve fortemente ligado ao agronegócio e à direita brasileira. Em 1985, o goiano fundou a União Democrática Ruralista (UDR), entidade que, especialmente no contexto da Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988), se tornou símbolo da reação conservadora de grandes proprietários rurais diante do avanço da pauta da reforma agrária na redemocratização, em oposição ao MST e à ideia de ‘função social da terra’. Foi por meio da UDR que conquistou seu principal palanque para as eleições presidenciais de 1989, suas primeiras para o cargo. A promessa de anistia a Bolsonaro funciona, portanto, como síntese: antes mesmo de desenvolver um programa, alianças ou um discurso nacional mais amplo, Caiado escolheu sinalizar diretamente ao eleitorado e às elites que está disponível para ser um catalisador da reabilitação política do bolsonarismo. Com isso, ele não contradiz o ‘centro’ e a ‘terceira-via’ brasileiros — revela sua verdadeira face direitista. Quando a grande imprensa tenta apresentá-lo como moderado, não está descobrindo um novo Caiado, mas confirmando, mais uma vez, que o ‘centro’ brasileiro sempre pende para a direita.
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