o último sábado (04/04), o presidente colombiano Gustavo Petro manifestou apoio à expansão do Pix para seu país, movimento que ocorre em meio a críticas do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) ao mecanismo brasileiro de transações. A defesa de Bogotá não representa um episódio isolado, mas se insere em um contexto mais amplo de transformação da infraestrutura de pagamentos na região, com potenciais implicações para a ordem financeira internacional.
A Expansão Silenciosa de uma Infraestrutura Alternativa
O movimento colombiano se fundamenta em desenvolvimentos recentes que já vinham alterando o panorama dos pagamentos na América Latina. No último mês, o Banco do Brasil estabeleceu operações de pagamentos presenciais via Pix na Argentina, mediante parceria com o Banco Patagonia e a Coelsa. De forma menos estruturada, o sistema brasileiro já vinha sendo utilizado através de vias privadas de conversão e liquidação em centros comerciais e turísticos frequentados por brasileiros, incluindo Ciudad del Este e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, além de destinos europeus como Portugal e França. Esta difusão gradual evidencia a capacidade de um sistema de pagamentos nacional transcender fronteiras quando responde a demandas práticas de integração comercial e mobilidade.
A reação dos Estados Unidos, contudo, antecede os movimentos recentes de internacionalização. Em julho de 2025, o Pix já havia sido incorporado ao contencioso comercial que fundamentou a investigação aberta pelo USTR contra o Brasil, contribuindo para as tensões tarifárias subsequentes. A questão transcende, porém, a dimensão meramente concorrencial. O Brasil consolidou em todo seu território uma infraestrutura pública de pagamentos caracterizada por rapidez, baixo custo e capacidade de reduzir a dependência de redes privadas internacionais – incluindo bandeiras de cartão e intermediários que operam sob a centralidade do dólar, especialmente em transações cotidianas.
Dólar, Hegemonia e Controle Sistêmico
A questão de fundo situa-se na arquitetura da hegemonia financeira norte-americana. O dólar, como principal moeda de reserva e liquidação global, sustenta a posição dos Estados Unidos ao centralizar operações em sistemas de pagamentos, compensação interbancária e redes de mensageria como o SWIFT – sobre os quais Washington e o Federal Reserve exercem influência a partir do controle da emissão, da regulação e do acesso ao circuito dolarizado. Esta posição estrutural permite a Washington manipular taxas de câmbio e reservas internacionais, uma vez que bancos centrais mantêm ativos em dólar e dependem deles para estabilidade e financiamento externo. Por meio de sanções, os Estados Unidos podem restringir o acesso ao sistema dolarizado, bloquear transações, congelar ativos e isolar economias que contrariem as demandas de seu governo e de suas corporações.
Neste contexto, o que se convencionou chamar de “Pix latino-americano” amplia para o plano regional a afronta ao dólar que o sistema já representava em território nacional. Esta realidade impõe uma análise sob dupla perspectiva. De um lado, configura-se uma possibilidade concreta de reduzir a tutela financeira e política dos Estados Unidos e aprofundar a integração regional. Em perspectiva mais ampla, tal articulação pode dialogar com iniciativas como o BRICS Pay, proposta de sistema semelhante ao Pix voltado a facilitar pagamentos entre países do bloco com maior uso de moedas locais e menor dependência do dólar. De outro lado, é improvável que os Estados Unidos permaneçam passivos diante da internacionalização do Pix na América Latina. Embora Petro identifique nesta iniciativa um caminho para a integração regional, Washington historicamente recorreu a bloqueios comerciais, imposição de tarifas e até ações militares para preservar sua influência – como evidenciado no caso da Venezuela, quando Maduro passou a exportar petróleo para a China em renminbi, desafiando o sistema do petrodólar.
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